Esteja pronto, e dê boas-vindas quando for a sua vez de experimentar a mudança, pois não há nada como ela para
aumentar as suas sensibilidades e elevar a sua mente.

MARCO AURÉLIO

(121-180)
Imperador e Filósofo Romano, no livro
O Guia do Imperador, página 170

CRENÇAS, VALORES, PRINCÍPIOS, RICARDINHO, BERNARDINHO, BRASIL

(Publicado em 29/07/2007)



O Brasileiro (o ser humano), todos os dias é posto à prova. Às vezes em grandes tragédias, às vezes em episódios triviais e aparentemente desimportantes, somos chamados à dar conta do que realmente somos, no que realmente acreditamos, quais são os nossos valores e nossos princípios.

Nossas crenças são as nossas convicções profundas, sem, necessariamente, justificativas racionais. É o processo mental que a pessoa tem para acreditar em alguma coisa. Uma disposição meramente subjetiva para considerar algo certo ou verdadeiro, por força do hábito ou da vivacidade das impressões sensíveis.

Já os Valores são medidas variáveis de importância que se atribui a alguma coisa. Uma escala pessoal segundo a qual ela decide fazer isso ou aquilo. Apoiar essa ou aquela ideia ou ação.

E os princípios, como consequência, são os ditames morais, regras pessoais. Leis de caráter individual. Preceitos que servem de base para o comportamento do indivíduo quando exposto a determinadas condições. Uma pessoa de princípios tem regras próprias de comportamento, geralmente bem rígidas.

Bernardinho, treinador da seleção brasileira de vôlei, teve de enfrentar o teste das crenças, dos valores e dos princípios, na hora de definir o time que disputaria os Jogos Pan Americanos no Rio.

No mesmo episódio a imprensa e a torcida brasileira também enfrentaram o mesmo teste. Só Bernardinho passou limpo!

O técnico cortou do time o jogador que acabara de ser eleito o melhor jogador do mundo. Segundo o treinador, apesar de excelente jogador, Ricardinho exercia liderança negativa no grupo. Era desagregador e não tinha suficiente senso de justiça e generosidade.

Para a Imprensa (e boa parte da torcida) não importa o que Ricardinho é como pessoa. O que importa é que ele "dá conta do recado dentro da quadra". Se ele é o melhor do mundo não pode ser cortado da seleção.

Assim, insuflados por uma mídia insensível e irresponsável a torcida foi levada imediatamente a deduzir que o corte estava sendo feito apenas para beneficiar o atleta Bruno, filho do treinador, que foi diretamente beneficiado pelo episódio (ninguém parou para fazer uma continha simples de 2 + 2: se fosse para beneficiar Bruninho, teria sido muito mais simples cortar Marcelinho, que já era reserva!). A vaia ao Bruno, no maracanãzinho, quando ele entrou em quadra foi um dos momentos mais patéticos da semana. Queriam Ricardinho à qualquer custo. "Danem-se princípios e valores. Não podemos perder essa medalha!"

Ainda bem que o Brasil tem professores do nível de Bernardinho, pra não nos deixar esquecer que o comportamento e as relações entre as pessoas são mais importantes do que medalhas. Que mesmo campeões do mundo não são perfeitos e precisam, de vez em quando, enfrentar seus demônios. Que não se pode esquecer as sábias palavras do mestre Armando Nogueira: "Quem triunfa sem nobreza não perde, perde-se".





PADILHA, Ênio. 2007





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A LEI DO BODE E A NOSSA COPA DO MUNDO

(Publicado em 12/06/2011)



A lei do Bode, você já deve ter ouvido falar dela, é uma fábula cuja origem está perdida no tempo. Uma de suas versões dá conta de que, na União Soviética, logo depois da revolução comunista, muitas famílias eram obrigadas a morar juntas numa mesma casa, em condições pouco agradáveis, com pouco espaço e nenhuma privacidade. Isto, naturalmente, produzia muito descontentamento e severas reclamações. Esse descontentamento e essas reclamações ameaçavam a governabilidade e era preciso resolver esse problema.

Formou-se uma comissão que fez dezenas de reuniões para debater o assunto e elaborar um projeto do que seria a solução do problema.

Quando, depois de muitos meses, chegaram a uma conclusão, apresentaram a proposta ao governo, que a considerou GENIAL e tratou de colocá-la em prática rapidamente.
Tratava-se de uma lei que obrigava que, em cada casa fosse colocado um bode, que passaria a dividir o espaço, os cuidados e os alimentos com todos os moradores.
O bode, como se sabe, é um bicho fedorento, por conta de glândulas que possui na base dos chifres, que exalam um cheiro forte e muito ruim. A vida dos cidadãos, que já era medonha, ficou pior ainda e o descontentamento e as reclamações aumentaram muito.

Depois de algumas semanas tendo que suportar um bode na sala, os cidadãos viram uma luz no fim do túnel quando o governo aceitou, finalmente, conversar a respeito e negociar uma solução para o problema.
Novas comissões foram formadas (em ambos os lados) e as negociações começaram, com o governo jogando pesado na defesa da manutenção do bode na sala.

Quando as coisas pareciam estar chegando ao limite, finalmente, o governo cedeu. E revogou a tal lei, autorizando as pessoas a retirar o bode de dentro de casa.
Foi uma festa! Houve muita comemoração! O povo ficou muito feliz!
Houve até quem ressaltasse, em discurso, a lucidez e a generosidade do governo em permitir a revogação da tal lei.
Ninguém mais falava das condições sub-humanas, da falta de espaço ou de privacidade que havia nas casas ocupadas por várias famílias. Sem o bode a situação ficou muito boa...

Brasil, 2011. Essa papagaiada em torno do sigilo nos preços das obras da Copa do Mundo me parece muito com a Lei do Bode.

O sigilo era algo tão absurdo que não me passa pela cabeça que alguém, no governo, tenha realmente pensado em utilizar-se desse recurso. Na minha fraca opinião, o que se queria era desviar a atenção da população e dos jornalistas para o principal: a flexibilização para as licitações de contratação das obras.

Discutiu-se tanto a questão do sigilo que a questão realmente importante foi esquecida: o absurdo que é flexibilizar o processo de licitações;
O absurdo que é entregar à mesma empresa o planejamento e a execução do mesmo trabalho (contrariando o Primeiro Princípio da Administração Científica, definido por Taylor, há 110 anos);
O absurdo de considerar normal esse atraso inaceitável para as obras que já deveriam estar em fase adiantadas de execução e ainda estão (muitas delas) apenas na fase de projeto.

Quer dizer: agora que o governo cedeu na questão do sigilo, tá tudo bem. Não tem mais problema nenhum.

Êêê, fubá!





PADILHA, Ênio. 2011





* Não confundir com a Lei de Bode (Johann Elert Bode, astrônomo Alemão, 1747-1826)






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MERCADO DE CAPITAIS NÃO É UMA CIÊNCIA EXATA

(Publicado em 12/10/2018)



Em 2013 escrevi uma resenha para o livro OS NÚMEROS DO JOGO, dos autores Cris Anderson e David Sally. Na primeira parte do livro os autores mostram que cada jogo de futebol, isoladamente é muito influenciado pelo fator sorte. Eles jogam um balde de gelo no leitor, afirmando (e demonstrando matematicamente) que muitas partidas poderiam simplesmente ser resolvidas no cara-ou-coroa.




Porém, eles explicam depois que, se uma partida de futebol, isoladamente, é quase uma loteria, resta aos dirigentes, aos treinadores e aos jogadores pensarem em termos de temporada. Ou melhor, temporadas. As estratégias de um time produzem seus resultados no final de uma temporada e não em partidas isoladas.

Ao ler o brilhante
GUIA SUNO DIVIDENDOS — A estratégia para investir na geração de renda passiva dos autores paulistas Tiago Reis e Jean Tosetto, fui sendo tomado à cada novo capítulo, da convicção de que o investimento no mercado financeiro segue o mesmo princípio.

Como dizem os autores, “não existe uma receita fixa para as pessoas alcançarem a independência financeira através de investimentos no mercado de capitais se houvesse, haveria uma cátedra nas universidades para isso. E tantas pessoas teriam acesso a essa receita que os resultados certamente ficariam aquém do esperado”.

O livro é escrito de forma didática e precisa. Aborda cada tema à partir do zero. É, portanto, um trabalho de investidores experientes destinado a investidores de primeira viagem. Apresenta (e esmiúça) conceitos importantíssimos como Dividendos, Juros sobre Capital Próprio, Renda Fixa, Balanço, Demonstração de Resultados, Fluxo de Caixa, Payout, etc. E vai além. Discorre sobre a filosofia e os métodos de importantes investidores brasileiros e de outros países.

O que mais me encantou no livro foi (o que deve ser qualidade de qualquer bom livro) a capacidade de convencimento, a qualidade dos argumentos e das informações apresentadas. Eu sempre recomendei aos meus leitores e aos meus alunos que não se preocupem com investimentos financeiros no mercado de capitais durante aqueles primeiros anos de suas carreiras. Minha posição sempre foi a de que a preocupação com investimentos no mercado de capitais deveria acontecer somente depois que as questões cruciais que afligem os profissionais em início de carreira. Ou seja primeiro se preocupar com a formação continuada, especialização e estabilização profissional. Em outras palavras. De acordo com as minhas orientações, nos primeiros 10 ou 15 anos da carreira (que começa no momento em que se entra na faculdade), nada de investimentos financeiros.

Este livro me fez refletir sobre isso. E me convenceu de que é importante, sim, alterar esse ponto de vista. Ficou claro para mim que os profissionais, mesmo os mais jovens (inclusive os recém-formados), por menores que sejam seus rendimentos, devem, sim, iniciar uma carteira de investimento no mercado de capitais. Ainda que sejam valores mínimos. Estou falando de R$ 30,00 (o mínimo necessário para investir no Tesouro Direto) a R$ 100,00 por mês. Porque, com essa atitude, a pessoa fica ligada, desenvolve a atenção e o conhecimento sobre o funcionamento do mercado financeiro e desenvolve o senso de Poupança.

O volume de investimentos nos primeiros anos, com certeza, não será relevante. Mas, quando chegar a hora em que a condição do profissional já o permita investir valores maiores ele já estará muito bem treinado e conhecerá profundamente o universo dos investimentos.

Ao ler o livro concluí que o Mercado Financeiro não é coisa para principiantes. Empresas como a Suno Research (onde atuam os dois autores) são fundamentais para dar aos não iniciados as melhores orientações para os primeiros passos.

Por ora, acho que um bom primeiro passo é ler esse livro e conhecer melhor o território no qual, em algum momento, todo profissional de Engenharia ou de Arquitetura precisa saber pisar. O mercado de capitais não é uma ciência exata. Portanto, não basta dominar matemática e ter raciocínio lógico para se dar bem nesse campo.





PADILHA, Ênio. 2018

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A CRUZADA

(Publicado em 09/04/2009)



Um leitor (de boa vontade) escreveu um comentário no meu site, sugerindo que eu deixasse de lado os temas que envolvessem entidades de classe, Crea, Confea, etc.

Dizia ele que eu não deveria cometer o erro da "cruzada política pela melhora das entidades". Que deixasse essa briga para os engenheiros-políticos, pois, do contrário, eu correria o risco de perder o público que gosta dos meus textos sobre Administração, Estratégia e Marketing.

É importante dizer que o comentário foi escrito de maneira que deixou muito clara a boa intenção e o cuidado do leitor, manifestando uma preocupação genuína com o meu trabalho. Por isso escrevi a ele a seguinte resposta:



"Prezado Colega,

Não penses que este seu comentário foi mal recebido por mim. Pelo contrário: fiquei lisonjeado com os seus elogios ao meu trabalho.
Senti que suas palavras foram sinceras e sua intenção extremamente positiva.

Digo isto porque, feliz ou infelizmente, não posso atendê-lo.
Mas posso (e devo) justificar minha posição para você, e para outros leitores que eventualmente pensem a mesma coisa.

Na verdade, eu mesmo já enfrentei (recentemente) esta angústia. Passei alguns meses me perguntando se valia a pena abordar esses temas (essa "cruzada política pela melhoria das entidades"). Se eu não deveria me dedicar apenas aos assuntos técnicos de Administração e Estratégia voltados para as empresas de Engenharia, de Arquitetura e de Agronomia.

A conclusão a que cheguei, depois de muita reflexão, é que EU NÃO POSSO.
Não posso fazer de conta que isto não é da minha conta ou que isto não diz respeito ao tema Administração, Estratégia e Marketing.

Todas as semanas recebo muitos pedidos de inclusão no mailing para receber o nosso "Três Minutos". Também recebo alguns pedidos de "remover". Felizmente os primeiros são mais numerosos do que os últimos.

Porém, toda vez que o tema do artigo da semana diz respeito a entidades de classe, Crea, Confea sindicatos ou a lideranças dessas organizações o número de leitores que solicitam exclusão do mailing é muito maior do que o número de novos leitores cadastrados.

Então você tem razão: eu corro o risco de perder o público que gosta dos meus textos de Administração, Estratégia e Marketing.
Pior ainda: algumas vezes são os diretores das entidades que ficam aborrecidos comigo. Aí eu perco contratos e oportunidades.

Como eu já tive a oportunidade de dizer pra muita gente, eu não tenho pretensões políticas dentro do nosso sistema profissional. Sou filiado a duas entidades de classe mas nunca sequer pleiteio cargos na diretoria. Tenho certeza de que o meu trabalho não se beneficiaria disso.

Tenho a convicção de que minha contribuição para a valorização das nossas profissões pode ser feita a partir dessa plataforma que eu já conquistei: o meu trabalho de escritor e palestrante: o estudo da Administração, Estratégia e Marketing e sua "tradução" para o universo específico da Engenharia, da Arquitetura e da Agronomia foi o caminho que eu encontrei para dar a minha parcela de contribuição

No entanto, meu amigo, esse meu trabalho é inteiramente ligado ao dia-a-dia dos profissionais no campo e das entidades de classe. Praticamente 100% dos meus cursos são organizados e promovidos por entidades de classe (geralmente com apoio dos Creas). Muitos dos dirigentes dessas entidades são pessoas que, de boa vontade, ajudam a divulgar o meu trabalho por esse Brasil a fora.

Da mesma forma como eu procuro, com o meu trabalho, interferir no dia-a-dia dos profissionais do campo, sinto-me na obrigação de interferir no dia-a-dia das entidades.

Alguns engenheiros que, como eu, escrevem livros e ministram cursos e palestras pelo Brasil e que, no passado, tinham um discurso mais comprometido com a valorização das profissões, sucumbiram às pressões e recolheram-se a um trabalho meramente técnico, sem identidade política e sem postura social. Concluiram que o bom negócio é abrir a caixa registradora e fazer vistas grossas com o que está acontecendo em volta. Eu não os culpo nem os julgo. Apenas não quero me juntar a eles.

Meu trabalho é essencialmente técnico. Meus livros, todos, são resultados de pesquisas e estudos técnicos. Meus cursos (tenho quatro sendo apresentados atualmente) são todos técnicos. Assumo o compromisso de estudar essas questões, trazê-las para a realidade de engenheiros, arquitetos e agrônomos e traduzir esses temas para uma linguagem e para soluções que possam ser adotadas pelos profissionais. É para isso que sou contratado e pago.

Mas os engenheiros, arquitetos e agrônomos não estão atuando numa bolha, isolados da sociedade, imune às leis e às questões da organização profissional.

As estratégias de negócio, a administração das empresas e, em última análise o marketing dos serviços profissionais está conectado à ações (e omissões) das entidades de classe, dos Sindicatos, dos Creas, do Confea e da Mútua. O nosso Sistema Profissional.

Por isso eu faço incursões a esse tema de vez em quando. É a minha forma de tentar contribuir. O que eu tenho para oferecer é a minha visão e os meus conhecimentos. Luto para que as nossas entidades sejam fortes, organizadas e bem estruturadas. E que nossas lideranças sejam profissionais capazes, bem informados e honestos. Ao discutir essas questões tento ser fiel ao que eu escrevi num artigo de 1987 (LER E ESCREVER): "não devemos deixar para os outros o trabalho para o qual estamos preparados"

Isso me custa alguns preciosos leitores. E, algumas vezes, me custa também alguns bons negócios, quando o interesse de algum "lider" é contestado. Eu gostaria que não fosse assim, mas não posso evitar.
É o preço que eu pago. É o preço que eu estou disposto a pagar para não ser omisso."





PADILHA, Ênio. 2009





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www.eniopadilha.com.br - website do engenheiro e professor Ênio Padilha - versão 7.00 [2020]

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