Domingo, 05/04/2020 – Veja todos os posts publicados nesta semana.

CRÔNICAS DA CRISE

LIVE NO INSTAGRAM



(Publicado em 04/04/2020)



Neste sábado (04/04/2020 - 16h00) estarei participando como convidado em uma Live no Instagram do colega engenheiro Emanuel Maia Mota, presidente licenciado do Crea-CE.

Conversaremos sobre (1) voto pela internet, (2) padronização de procedimentos (em todos os Creas), (3) uso de Inteligência Artificial, utilização de BigData, (4) ações possíveis em favor da Qualidade da Educação Fundamental e (5) ações possíveis em favor da Qualidade da Formação Profissional.

Não perca esse bate-papo:




Veja, abaixo, os links para os artigos citados durante o Bate-Papo:

QUEM TEM MEDO DA ELEIÇÃO VIA INTERNET NO SISTEMA CONFEA/CREA

POR QUE ODIAMOS TANTO O CREA?

ENCONTRO DE LIDERANÇAS DO SISTEMA CONFEA/CREA (2020)
(Veja o tópico EDUCAÇÃO


Muito obrigado a todos os que participaram, enviaram perguntas ou fizeram comentários





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PADILHA, Ênio. 2020

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CRÔNICAS DA CRISE

OS BENEFÍCIOS E PERIGOS DA AUTOPUBLICAÇÃO



(Publicado em 03/04/2020)



Em janeiro de 2019 escrevi um texto que explica O CAMINHO DAS PEDRAS PARA A PRODUÇÃO DE UM LIVRO (link AQUI) que é uma tentativa de explicar quais são as fases e tarefas para publicar um livro, desde a ideia original até o exemplar impresso entregue ao leitor.

Esse artigo, felizmente, teve muitos leitores desde a sua data de publicação e, nesta semana, um professor por quem eu tenho um carinho muito grande (o Farlley Derze, de Brasília) deixou lá um comentário e uma pergunta:
Eu gostaria de conhecer sua opinião a respeito da “autopublicação” (Amazon, Clube de Autores, PerSE).
E, ainda, sua opinião sobre os e-Books


É claro que eu tenho de dar uma resposta, embora não seja uma coisa tão fácil. Aí vai:




Num passado não muito distante (estamos falando de 50 ou 60 anos) escrever um livro era um trabalho de no mínimo, duas pessoas: o autor e o editor.

Cabia ao editor fazer a curadoria do trabalho do autor. Avaliar a ideia original do livro, decidir se valia ou não a pena publicar, orientar o autor no processo de pesquisa, fazer a leitura crítica dos originais, enfim... o editor era o filtro que entregava ao livro um "selo de qualidade editorial" que, muitas vezes, garantia o sucesso da produção.

E, além disso, os custos de produção de um livro eram muito altos e poucos tinham acesso a esses recursos. Era preciso utilizá-los com muita inteligência e, claro, não se podia publicar qualquer coisa.

Entre os anos 1960 e 1980 as impressoras Offset foram se tornando cada vez mais populares e as velhas impressoras de tipos móveis foram sendo substituídas, resultando num custo cada vez menor para a impressão de jornais, revistas e livros. Com isto, entre o final do século XX e nas primeiras décadas do século XXI a ETAPA 3 - Impressão e Acabamento da produção dos livros tornou-se acessível para muito mais gente (Leia o artigo O CAMINHO DAS PEDRAS PARA A PRODUÇÃO DE UM LIVRO para entender do que estamos falando).

No início dos anos 2000 a internet permitiu o surgimento dos Blogs e com eles uma legião de autores passou a escrever com uma frequência muito maior. Alguns deles descobriram que tinham leitores interessados no que escreviam e uma parte desses autores (que tinham muitos leitores) encontrou espaços nas editoras estabelecidas e tiveram seus livros publicados.

Muitos porém, apesar de terem leitores foram preteridos e acabaram descobrindo que poderiam bancar, por conta própria a produção dos seus próprios livros. Afinal, não existe nenhuma lei ou reserva de mercado protegendo interesses das editoras.

O que parece ter sido uma coisa boa, representa também um grande perigo: a eliminação da figura do EDITOR, que funcionava como um curador literário acabou permitindo a publicação de um volume muito grande de livros de qualidade no mínimo duvidosa.

Mas isso nem é um grande problema. Afinal, ninguém é obrigado a comprar um livro e, muito menos, lê-lo até o fim. Portanto, um livro ruim na sua biblioteca é, quando muito, apenas um mau investimento.

Então, respondendo a uma das perguntas do meu querido amigo Farlley: Sim, eu acho que a possibilidade de autopublicação, ainda que possa resultar, eventualmente, em livros ruins, não é, em si, um grande problema.E isto se aplica, indistintamente, tanto para livros impressos como para e-books.

Eu já me acostumei com e-books. Embora ainda goste mais dos livros impressos, consigo ler muito bem nos aplicativos e nas telas do computador. O que acontece com os ebooks , no entanto, é que esse é um produto muito fácil de fazer mal feito.

Uma vez que os custos de produção são muito mais baratos, muito mais gente se aventura a publicar seus próprios e-books e isso nos leva a uma quantidade muito grande de livros muito ruins nesse formato.

Eu prefiro e-books que já tenham tido uma versão impressa. É um critério de seleção que eu costumo fazer.




Agora, sobre a outra parte da pergunta, respondo contando um pouco sobre como eu acabei, há 20 anos, criando a OitoNoveTrês Editora para produzir os meus livros.

Como vocês sabem, meu primeiro livro (MARKETING PARA ENGENHARIA E ARQUITETURA) foi editado pelo Crea-SC, em 1998. Teve a curadoria do querido amigo arquiteto Osvaldo Pontalti. Foram muito importantes as orientações que eu recebi dele e o cuidado que ele teve com a qualidade do produto final. Eu não tinha nenhuma experiência com aquilo e, provavelmente, sem a participação dele, teria transformado meu próprio trabalho em um fracasso editorial.

Com o sucesso do primeiro livro, comecei logo a produzir o segundo (MARKETING PESSOAL E IMAGEM PÚBLICA) com o objetivo de complementar o conteúdo. Apresentei os originais a diversas editoras de Santa Catarina. As condições propostas por essas empresas esbarravam no meu bom senso. Não fazia nenhum sentido entregar um livro pronto para uma editora que não prometia fazer nenhum esforço de promoção e distribuição e que me pagaria apenas 10% do valor de venda de cada unidade (e só se houvesse vendas!).

Meu raciocínio foi o seguinte: se eu terei de escrever, promover e vender os livros e só vou ganhar 10% então eu mesmo vou assumir todo o trabalho e todo o risco, mas, pelo menos, ficarei com uma parcela bem maior do faturamento. E foi o que eu fiz (e nunca me arrependi!).

E eu acredito que esse é o raciocínio de todos os autores independentes e de todas as pequenas editoras espalhadas pelo Brasil. Trata-se apenas de escapar de um modelo de negócio (das grandes editoras) que só é bom para o autor se existir a perspectiva de vendas de milhares e milhares de exemplares por mês. Não é o meu caso, infelizmente.

Isto explica o surgimento de dezenas de plataformas, dentre as quais destacamos aqui essas três mais famosas (Amazon, Clube de autores, PerSE). Todas essas plataformas têm em comum o fato de não fazerem curadoria, ou seja: permitem uma linha reta da cabeça do autor até a mão do leitor. Muitas vezes isso resulta em um livro sem revisão gramatical, sem revisão editorial, com uma diagramação ruim e ilustrações impertinentes.

Mas, eventualmente, como em qualquer área, podem surgir produtos de boa ou excelente qualidade.

Essas plataformas de produção e distribuição disponibilizam ao autor a ETAPA 3 - Impressão e Acabamento e a ETAPA 4 - Lançamento e Distribuição. Ajuda muito. Mas o autor não pode perder de vista que são as etapas (Pesquisa e Texto) e 2 (Produção pré-impressão) as que, realmente, garantem a qualidade do livro.




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CRÔNICAS DA CRISE

FAZER EMBAIXADINHAS NÃO GANHA O CAMPEONATO



(Publicado em 02/04/2020)



Em setembro de 2015 eu escrevi um artigo no meu site com o título ABRE TEU OLHO, COLEGA ARQUITETO no qual eu enumerava considerações sobre uma crescente onda de Consultores/Coaches/Evangelizadores que ensinavam técnicas de manipulação dos clientes, truques baseados na neurolinguística e conceitos como “gatilho mental” para provocar comportamentos ou “isca” para atrair clientes incautos.

Evidentemente meu esforço foi em vão. Cinco anos depois, essas coisas foram espalhadas de tal maneira que agora qualquer recém-formado (e até mesmo alunos de 5º ou 6º período da graduação) já está se apresentando como AUTORIDADE. Ninguém mais é aprendiz.

Os profissionais têm cada vez mais dificuldade para separar o joio do trigo e estabelecer quem, de fato, tem um conhecimento sólido e um conteúdo com valor diferenciado.




Parece que o principal indicador de qualidade utilizado é o número de seguidores no Instagram. Eu não digo que isso não é importante, mas não pode ser o único, nem o mais importante.

Na minha área de conhecimento, eu conseguiria listar uma dúzia de autores experientes, com livros publicados e pesquisas consistentes e que não têm nem 10 mil seguidores. Por outro lado, Seria muito fácil apontar uns 15 ou 20 com mais de 50 mil seguidores no Instagram mas que não conseguiriam escrever um artigo para publicação em uma Revista Nacional B5 (na verdade, a maioria deles nem sabe o que é uma Revista Nacional B5).

Esse parece ser o desafio que se impõe, nos dias de hoje, para aqueles que produzem conteúdo de qualidade: demonstrar que, fazer centenas de embaixadinhas sem deixar a bola cair não faz de ninguém um bom jogador de futebol.

Nessas semanas de quarentena as Lives se multiplicaram quase tanto quanto o próprio coronavírus. Eu tenho visto muitas delas (sempre se pode aprender algumas coisas). Em algumas, porém, eu me sinto como se estivesse vendo um jogo de um campeonato de várzea... em dia de chuva.

E o pior é que os protagonistas acham que estão jogando a Champions League. Chega a ser patético a falta de leitura, de referências e de experiência. Mas não faltam arrogância e pretensão.

Nesta semana eu estava assistindo a apresentação de um jovem engenheiro, formado há três anos e que disse, lá pelas tantas, que estava ali para ensinar os seguidores a serem como ele e a conquistarem a posição que ele conquistou. Não sem antes dizer, claro, que é muito fácil.

(Não consigo imaginar um profissional competente, com 15 ou 20 anos de experiência, dizendo uma barbaridade dessas)

Tenho conversado com colegas de áreas técnicas como Estruturas, Gestão de Projetos e Iluminação, por exemplo, e eles relatam as mesmas coisas. Dizem que está em curso um festival de barbaridades.

No meu caso, em praticamente todas as lives que eu vi, os apresentadores não foram além dos manuais de marketing e vendas. Nenhum pensamento realmente novo. Nenhuma abordagem inovadora. Só o mesmo Bê-a-Bá (ou bla-bla-blá, se preferir). Na maioria dos casos, confundindo conceitos, desconsiderando fundamentos teóricos e realizando tentativas bizarras de redescobrir a roda.

Não estão fazendo mais do que embaixadinhas. E são bons nisso. Atraem a atenção do público e ganham suas moedas. Mas não são úteis para quem pretende ganhar campeonatos e chegar à Série A.

Volto a repetir: abram os olhos, colegas engenheiros e arquitetos.




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CRÔNICAS DA CRISE

BUENOS AIRES VAI TER DE ESPERAR



(Publicado em 01/04/2020)



Como, sabem os leitores que acompanham nosso trabalho, em novembro iniciamos aqui a produção dos 30 vídeos da série EMPREENDER ARQUITETURA, projeto muito bem sucedido do CAU/SC sobre empreendedorismo, estratégia e gestão de escritórios de Arquitetura. Este trabalho foi muito intenso e consumiu todos os dias de novembro, dezembro e janeiro, sem folga nenhuma.

Logo depois de concluído essa tarefa, a OitoNoveTrês voltou-se para a organização final do nosso ENCONTRO NACIONAL DE ESCRITÓRIOS DE ARQUITETURA E ENGENHARIA, que foi realizado em Balneário Camboriú nos dias 5, 6 e 7/MAR/2020 com a participação de muitos profissionais de diversas regiões do Brasil.

E assim, nossa folga de fim de ano (minha e da Áurea) foi transferida para abril. Hoje seria o primeiro dia dessas "mini férias" programada para Buenos Aires.
Os recentes acontecimentos, claro, adiaram esses planos.
Buenos Aires vai ter de esperar.




Desde que soubemos que o descanso teria de ser transferido para abril, começamos a fazer os planos e organizar a viagem. Compramos passagens, reservamos hotel, e fizemos a programação de toda a agenda (com a programação padrão de turistas: Obelisco, Casa rosada, Praça de maio, Malba Museu, Bomboneira, Recoleta, Cafés, Lojas de Rua, Jardim das Roseiras, Livrarias, Empanadas... a lista é enorme. Tudo ficou para novembro.

Até lá as prioridades são outras




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CRÔNICAS DA CRISE

HOJE (31/MAR) É DIA DO ANIVERSÁRIO DE RENÉ DESCARTES



(Publicado em 31/03/2020)



"INEXISTE NO MUNDO coisa mais bem distribuída que o bom senso, visto que cada indivíduo acredita ser tão bem provido dele que mesmo os mais difíceis de satisfazer em qualquer outro aspecto não costumam desejar possuí-lo mais do que já possuem.

E é improvável que todos se enganem a esse respeito; mas isso é antes uma prova de que o poder de julgar de forma correta e discernir entre o verdadeiro e o falso, que é justamente o que é denominado bom senso ou razão, é igual em todos os homens; e, assim sendo, de que a diversidade de nossas opiniões não se origina do fato de serem alguns mais racionais que outros, mas apenas de dirigirmos nossos pensamentos por caminhos diferentes e não considerarmos as mesmas coisas. Pois é insuficiente ter o espírito bom, o mais importante é aplicá-lo bem.

As maiores almas são capazes dos maiores vícios, como também das maiores virtudes, e os que só andam muito devagar podem avançar bem mais, se continuarem sempre pelo caminho reto, do que aqueles que correm e dele se afastam."


(primeiros parágrafos do livro "O DISCURSO DO MÉTODO" de René Descartes)




Já que somos cartesianos, nada melhor do que conhecer a obra prima do pensador do qual deriva essa palavra: Renê Descartes.

Versão eletrônica do livro DISCURSO DO MÉTODO
Autor: RENÉ DESCARTES
Créditos da digitalização: Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia)
Homepage do grupo: http://br.egroups.com/group/acropolis/

A distribuição desse arquivo (e de outros baseados nele) é livre, desde que se dê os créditos da digitalização aos membros do grupo Acrópolis e se cite o endereço da homepage do grupo no corpo do texto do arquivo em questão, tal como está acima.

DESCARTES, R. Discurso do Método. Versão eletrônica do livro. Tradução de Enrico Corvisieri. Disponível em http://br.egroups.com/group/acropolis/

Para fazer o download do arquivo (texto integral do livro) basta clicar na imagem (acima)




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CRÔNICAS DA CRISE

TRÊS MINUTOS



(Publicado em 31/03/2020)



Tenho percebido (e aplaudido) os esforços que muitos brasileiros estão fazendo no sentido de contribuir para que essa fase de Isolamento Social seja superada com saúde, o mínimo de estresse e alguma produtividade.

Médicos, enfermeiros, bombeiros, lixeiros, padeiros, caminhoneiros, operários nas fábricas que estão produzindo alimentos e EPIs, jornalistas, professores que continuam lecionando por EAD... todos estão dando contribuições inestimáveis. Não é possível superar esse nível de esforço e sacrifício.

O que eu posso fazer? Bom, aqui, no confinamento da minha biblioteca, tenho me esforçado, desde o dia 16/MAR, para entregar, todos os dias, três minutos de leitura de um texto inédito para quem visita o meu site.
O objetivo deste trabalho é ajudar os colegas engenheiros e arquitetos a entender como os fatos recentes podem ser entendidos, à luz de conhecimentos consagrados de Administração, possibilitando conceber e planejar Estratégias para os escritórios de Arquitetura e de engenharia.
Espero estar ajudando.




O acervo do nosso site é composto por mais de 10 mil postagens. Cerca de 800 são artigos de minha autoria, escritos de 1987 (o mais antigo, LER E ESCREVER) até os dias de hoje. Você pode ter acesso a todos esses artigos, já organizados e categorizados clicando AQUI.

Durante muitos anos mantive ativo uma newsletter semanal chamada TRÊS MINUTOS (enviada para e-mails cadastrados) contendo um artigo, geralmente inédito. Um novo artigo a cada semana. Agora o desafio ficou mais intenso: um por dia.

Primeiro, é preciso encontrar um tema que atenda a pelo menos três condições:
(1) Não pode ser discussão técnica sobre o novo coronavírus ou sobre a Covid19. Isto deve ser deixado para os especialistas. Gente que estudou muito e faz disso a sua profissão;
(2) Não pode ser MAIS DO MESMO. Não me cabe entrar aqui em discussões que já estão esgotadas, especialmente quando temos uma sociedade muito dividida em que os dois lados opostos querem apenas reafirmar suas próprias convicções, ainda que contrariando a lógica, a matemática e a história.
(3) Tem de ser algo que ajude o leitor a refletir sobre o que está acontecendo nos dias de hoje e que contribua, de alguma forma, para melhorar a qualidade das suas decisões no futuro.

Decida você, leitor, se eu estou dando conta da tarefa. Mas não deixe de voltar aqui, todos os dias. Sempre haverá TRÊS MINUTOS DE LEITURA esperando por você.




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CRÔNICAS DA CRISE

OS ROTEIRISTAS PIRAM



(Publicado em 30/03/2020)



Duas variáveis importantes foram introduzidas pela Covid19 como ingredientes dramáticos em filmes futuros sobre pandemias: (1) o tempo entre o contágio e a manifestação dos primeiros sintomas da doença e (2) o fato de haver um grupo de risco perfeitamente definido (e não incluir um provável herói do filme entre eles).

A velocidade do contágio, a letalidade e as consequências terríveis para os infectados, para os profissionais da saúde e para a população em geral sempre estiveram presentes nos filmes. Mas o que está pegando agora, nessa pandemia da vida real, é que as pessoas (até mesmo gente esclarecida e que passou por faculdades onde se ensina lógica matemática, estatística e probabilidade) estão tendo dificuldade para entender que, ao mesmo tempo em que estamos lutando contra um vírus, estamos lutando contra o tempo e para salvar a vida dos outros.




Assim como o 11 de setembro mudou pra sempre a lógica dos filmes sobre terrorismo fundamentalista religioso, também esta pandemia da Covid19 terá consequências sobre as produções cinematográficas do gênero, no futuro.

Uma coisa que nenhum filme sobre pandemias já abordou no passado (não que eu saiba. Se alguém souber, me corrija, por favor) é o fato de que a combinação da rapidez no contágio com a demora para manifestar os sintomas e a gravidade seletiva da doença num determinado grupo ser muito maior cria problemas de interpretação da situação e dilemas morais para os quais, aparentemente, a sociedade capitalista nunca esteve preparada para enfrentar.

No final de fevereiro de 2020 o prefeito de Milão, na Itália, embarcou de cabeça na campanha MILÃO NÃO PARA, que estimulou os moradores da cidade a continuar as atividades econômicas e sociais, mesmo sob alerta do risco de propagação do novo coronavírus (que já estava ativo na região havia um mês). O que aconteceu depois é história. Não preciso dar detalhes aqui.

Mas, pelo mundo todo, outros dirigentes nacionais e líderes empresariais continuaram a cometer o mesmo erro como se estivessem vendo outro filme.

O grande vilão desse nosso filme é justamente o fato de que o inimigo está oculto numa equação cuja variável mais importante é o tempo decorrido entre a pessoa se infectar e manifestar os primeiros sintomas, que varia entre 5 e até 21 dias (nos filmes, geralmente a manifestação é imediata).

Esta demora para manifestação da doença cria uma cegueira para a sociedade em relação ao tamanho do problema e, quando o monstro aparece já está num tamanho tão grande que torna difícil (quase impossível) enfrentar e vencer.

Além disso, temos a questão adicional de que a maioria dos infectados não desenvolve a doença ou desenvolve sintomas simples: "uma gripezinha", como dizem os incautos. O problema de saúde real, claramente, atinge os idosos e pessoas com doenças pré-existentes. Esses correm risco real de vida ou de sequelas graves.

Daí decorre o dilema moral importante (e que nunca foi explorado em nenhum filme): os beneficiários dos sacrifícios que estão sendo pedidos aos adultos jovens e saudáveis são justamente os idosos, portadores de doenças e outros grupos improdutivos. Muita gente cujos pais e avós estão seguros em quarentenas razoavelmente confortáveis não tem a mesma disposição para fazer sacrifícios adicionais por desconhecidos.

Além do mais, tudo indica, de acordo com o senso comum, que a situação está sob controle. O problema é que, se o diabo mora nos detalhes, o demônio se alimenta do senso comum. Não tem perigo de dar certo.




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PADILHA, Ênio. 2020

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CRÔNICAS DA CRISE

OS CONGRESSOS VIRTUAIS



(Publicado em 29/03/2020)



Nesses dias de Lives diárias sobre tudo quanto é tema os congressos virtuais começam a acontecer em todo lugar e eu voltei a receber convites para participar deles, como palestrante.

Cada vez que recebo um convite, dou uma olhada nos termos da proposta. Se for o modelo de negócio padrão desse tipo de congresso, simplesmente mando como resposta o link para este artigo, escrito em 2015.

Se, depois de ler o texto (abaixo), o coordenador do congresso quiser continuar a conversa, podemos seguir adiante.




(Publicado em 15/04/2015)



Em 1996 eu dirigia o meu escritório de Engenharia Elétrica em Jaraguá do Sul-SC e estava envolvido numa negociação de um projeto elétrico para um edifício grande a ser construído na cidade. O cliente, uma importante construtora da região, tinha um negociador duro cujo objetivo, evidentemente, era baixar o meu preço de qualquer maneira.

Esgotada a "série básica" de argumentos ele começou a tentar me convencer de que fazer aquele projeto (importante) seria muito bom para o marketing da minha empresa e que a divulgação obtida deveria ser entendida como parte do meu pagamento.

Respondi: "entendo perfeitamente seu ponto de vista. Mas, infelizmente, essa sua proposta chega com dez anos de atraso.

"Como assim? Por que dez anos?", perguntou ele.

"Porque há dez anos eu estava abrindo meu escritório. Eu era um desconhecido e meu escritório não tinha nenhum cliente. Em 1986 uma proposta como essa seria muito bem vinda e eu, certamente teria de considerar".

"Sim, entendo, retrucou ele, mas publicidade nunca é demais. Ou você acha que pode dispensar a visibilidade positiva que uma obra deste porte pode lhe dar?"

"Sr. Osmar, de fato, publicidade nunca é demais. Porém, haveria alguma coisa muito errada comigo e com a minha empresa se, depois de 10 anos de atividade, eu ainda estivesse aceitando trabalhar em troca de publicidade para o meu trabalho, o senhor não acha? Essa fase já passou. Foram os primeiros dois ou três anos da empresa. Agora já construímos uma certa reputação e podemos trabalhar por dinheiro. Que tal?"

Corta para 2015. Fui convidado para participar de um CONGRESSO VIRTUAL DE ENGENHARIA, tipo de evento que está virando uma febre na internet. Já participei de um desses congressos no ano passado. Acho a ideia muito bacana.

Nesse tipo de evento o palestrante prepara o conteúdo da palestra, grava um vídeo exclusivo, no qual recomenda-se não fazer divulgação de nenhum produto do autor. O vídeo é então entregue ao coordenador do evento que o inclui na programação do congresso e a transmissão é feita, na data estabelecida para a audiência de interessados (inscritos no congresso).

No caso desse congresso virtual (e de outros que eu sei) não existe pagamento de honorários para o palestrante.

Até aí, tudo bem. Eu estava considerando aceitável despender meu tempo para produzir o vídeo e disponibilizar o conteúdo para o público do congresso tendo como contrapartida o fortalecimento da minha marca no mercado.

O problema apareceu quando chegou no meu e-mail o TERMO DE CESSÃO DE DIREITOS que eu teria de assinar para participar DE GRAÇA no tal Congresso: pelos termos do documento o autor teria de ceder, de forma gratuita (além da palestra),



"o direito de uso do nome, imagem e voz, conjunta ou separadamente, bem como os direitos sobre o conteúdo, que poderá ser reproduzido em texto ou quaisquer outras formas, captadas durante encontros, entrevistas ou similares concedidas ao evento ou seus substabelecidos representantes, para criação de aulas e cursos educativos ou similares, com ou sem fins lucrativos, com divulgação por internet e quaisquer outros meios, a exemplo de DVD, Blu-Ray, bem assim quaisquer outros formatos de mídias e veículos de comunicação, impressas ou eletrônicas, que existam ou que venham a existir, incluindo-se marketing e publicidade, e por números indeterminados de vezes”



Minha primeira reação foi, “o quê!? Que brincadeira é essa?”
Pensei comigo, “o cara recebeu isso do Departamento Jurídico e nem leu direito, simplesmente repassou sem se dar conta do absurdo que está propondo”.

Na verdade, esses congressos costumam ter uma série de produtos (CDs, DVDs, ebooks e outras publicações) associados à eles, utilizando os conteúdos apresentados no evento e que são vendidos aos participantes depois que o evento termina. Essa é, no fim das contas, a principal fonte de receita desses congressos.

Não há nada de errado nisso, exceto o fato de que, nesse processo, existe uma apropriação, por parte dos donos do evento, do conteúdo produzido pelos palestrantes. No meu entender, isso já é outro negócio. Deve haver outro contrato para comercializar esses produtos.

Então resolvi preparar um Termo de Cessão mais razoável e mandei pra ele, reforçando meu interesse em participar do evento, mas deixando claro que os termos propostos no documento que ele enviou são completamente fora de propósito.

Surpresa: o próprio coordenador do evento entrou em contato comigo (pelo skype) para defender os termos do documento original, sob os argumentos de que (1) este é o modelo de negócio desse tipo de congresso e que não haveria como abrir mão; (2) Eu tinha de considerar a divulgação que o meu trabalho teria e que isso justificaria abrir mão, de forma totalmente gratuita e por tempo indeterminado de um conteúdo produzido por mim.

Lembrei do seu Osmar e da sua proposta de 1996. E repeti a resposta. Eu disse claramente. NÃO EXISTE A MENOR POSSIBILIDADE DE EU ASSINAR UM DOCUMENTO NESSES TERMOS. E tenho certeza de que um autor/palestrante só assinaria este documento se (a) for muito desatento ou descuidado dos seus direitos ou (b) se não tiver a menor noção do valor do seu produto.

Existe, claro, uma terceira alternativa: (c) um palestrante que seja tão novato, inexperiente e desconhecido que avalie como interessante fazer esse tipo de negócio. Eu disse: "eu não tenho dúvidas de que o Sr. haverá de encontrar muitos. Só não sei se isso é sustentável, do ponto de vista do valor do Congresso no médio e longo prazo. Eu, de minha parte. Tô fora".

Mas, sinceramente, eu não sei o que me incomoda mais. Se é (1) existir gente que faz esse tipo de proposta, ou se é (2) ter autor/palestrante que aceita ou ainda (3) o fato de que, para a maioria dos participantes do congresso, tanto faz.




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PS.: Dei mais sorte em 1996. Naquele dia fechei o negócio do projeto com a construtora.



PADILHA, Ênio. 2015

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ENTRE ASPAS

"A riqueza é um dos fins para viver feliz: os homens transformaram-na no único fim."

ANATOLE FRANCE

(1844-1924)
Escritor Francês e Prêmio Nobel de Literatura (1921), citado no livre
Ética e Negócios, de Julio Lobos, página 98

ENTRE ASPAS

"A liderança é uma poderosa combinação de estratégia e carácter. Mas se tiver de passar sem um, que seja estratégia."

NORMAN SCHWARZKOPF

(1934-2012)
General do exército dos Estados Unidos, citado no livro
O Livro Militar, de James Charlton, página 83

ENTRE ASPAS

"Arquitetura é antes de mais nada construção, mas, construção concebida com o propósito primordial de ordenar e o espaço para determinada finalidade e visando a determinada intenção."

LÚCIO COSTA

(1902-1998)
Professor, Arquiteto e Urbanista, no livro
Considerações sobre arte contemporânea (1940)

ENTRE ASPAS

"A razão é igual em todos os homens; a diversidade das nossas opiniões não vem, pois, de que uns são mais capazes de conhecer o verdadeiro do que os outros, mas de que alguns a conduzem bem, ao passo que outros a conduzem mal."

RENÉ DESCARTES

(1596-1650)
Filósofo, físico e matemático, no livro Discurso do Método, página 29

ENTRE ASPAS

"Qualquer um que teve contato real com a fabricação das invenções, que construiu a arte de rádio, sabe que estas
invenções foram o produto de experiência e trabalho
baseado em raciocínio físico, antes que nos cálculos
dos matemáticos e fórmulas. "

EDWIN ARMSTRONG

(1890-1945)
Engenheiro eletricista norte americano e inventor do Rádio FM,
citado no livro Eletrônica de P. Arun, página 310

NOTAS AUTOBIOGRÁFICAS

SOBREVIVI AO TRABALHO INFANTIL. MAS NÃO FOI LEGAL.



(Publicado em 04/04/2020)



COMECEI A TRABALHAR COM 11 ANOS. Não recomendo. Não acho que isso tenha ajudado, de nenhuma maneira na minha formação. Tenho certeza de que aquilo não fez de mim uma pessoa melhor, nem mais honesta ou menos complicada.

Mas aconteceu comigo, como acontecia com quase todos os meninos da minha idade (e classe social, evidentemente). No bairro pobre onde eu morava (bairro Canta Galo, em Rio do Sul, SC) quase todos garotos de 11 ou 12 anos largavam a escola e iam trabalhar em alguma coisa pra ajudar em casa.




Em 1970 eu fazia a 5ª série no Henrique Fontes (que, na época, funcionava no prédio do Paulo Zimmermann, no centro de Rio do Sul). As aulas eram de tarde, de segunda a sábado. Mas de manhã eu, com 11 anos, e meu irmão mais velho, Carlos Alberto, com 12, já fazíamos limpeza (capinar, roçar, arrancar mato, remover entulhos...) em jardins e quintais nas casas de gente rica da cidade, geralmente as mesmas casas em que a minha mãe trabalhava fazendo faxinas, lavando e passando roupas.

A casa da Dona Celeste (mãe do seu Ivens) era a que a gente mais gostava, porque sempre, no meio do trabalho tinha uma hora do lanche. Ela fazia um café e um sanduíche que a gente comia com muito gosto. Mas tinha algumas casas que era só trabalho pesado, sem lanchinho nenhum.

Aquele ano de 1970 foi um ano muito duro para a nossa família. Éramos em sete irmãos e não havia dinheiro pra nada. Nunca tínhamos condições de comprar os materiais para as aulas. Os livros que a gente utilizava eram doados pela escola. Na época o governo não fornecia o material escolar nem os uniformes. Era tudo por conta dos pais dos alunos.

Assim, quando, depois de uns três meses de aula, os professores perceberam que a gente não teria mesmo como comprar os livros e cadernos, encontraram uma maneira de nos dar o material, livros e cadernos, tudo com o carimbo da escola (pra devolver no fim do ano). Hoje em dia não tem nada demais em receber o material escolar da escola, mas, naquela época, isso era uma humilhação danada.

Por isso, no final daquele ano de 1970, a gente não ficou chateado quando a minha mãe e meu pai decidiram que seria melhor que eu e meu irmão deixássemos a escola pra lá e fôssemos arranjar trabalho pra ganhar algum dinheiro e ajudar nas contas da casa.

Meu irmão, que era mais velho (e mais forte) logo conseguiu um emprego na Fundição Estrela. Eu bati pernas de porta em porta de muitas empresas da cidade pedindo emprego, até que arranjei o primeiro, na Marofrás, uma grande madeireira da região.

Meu trabalho era ajudar a carregar e descarregar tábuas de madeira em caminhões da empresa e depois fazer retoques nas falhas das peças (com pó de serragem misturado com cola branca) antes que fossem para a seção de beneficiamento. Era um trabalho muito pesado e eu era muito fraquinho. Era início do ano. Verão de rachar, com um calor insuportável. Eu não dava conta.

Por sorte, havia um carroceiro, o Seu Jorge, que trabalhava junto a várias madeireiras da região, recolhendo restos de madeira e revendendo como lenha em diversos lugares da cidade. Ele me ofereceu a vaga de ajudante. Eu deveria carregar e descarregar a carroça, tratar e encilhar os cavalos. Parecia melhor. Menos doloroso. E eu iria ganhar a mesma coisa. E assim foi.

Mais tarde descobri que havia uma vaga para trabalhar, nos sábados, como ajudante de lavação de carros num posto de gasolina que ficava no final da rua Coelho Neto (quase no pé da ponte Curt Hering, onde hoje funciona o Banco do Brasil). O trabalho no posto era bem duro. Para lavar os carros, por dentro e por fora eu passava o dia inteiro todo molhado e sujo. Mas, no final do dia ganhava o equivalente à metade do que eu ganhava na semana inteira trabalhando na carroça. E assim, com 12 anos eu não apenas já trabalhava. Eu tinha dois empregos!





O TRABALHO DE TODO SÁBADO lavando carros no posto de gasolina durou o ano inteiro. Mas outros empregos foram se alternando. Trabalhei um tempo embrulhando balas na Fábrica de Balas Eliane, que ficava bem no final da Rua Pedro Moreto, no bairro das Laranjeiras. Eu adorava aquele trabalho, por causa dos amigos que eu fiz por lá, gente que eu lembro o nome até hoje (João, Anita, Leila... pessoas sensacionais).

Eu morava no bairro Canta Galo e a fábrica de balas ficava no outro lado da cidade. O intervalo de almoço era de apenas uma hora e meia e eu não tinha uma bicicleta. Então não dava tempo para ir em casa almoçar. Por isso a mãe preparava uma marmita (na verdade uma panelinha de alumínio, com tampa, que ela embrulhava num pano de louça) e mandava o Edson ou a Enoína (um dos meus irmãos menores) levar até no meio do caminho. Eu caminhava a outra metade do trecho e a gente se encontrava numa pracinha que existia bem no meio da rua Sete de Setembro, mais ou menos na frente da Delegacia de Polícia, no local onde, mais tarde passou a funcionar uma unidade da APAE. Na época era uma pracinha com um parquinho infantil (parecido com este aí da foto). Eu almoçava e, depois do almoço eu e o irmão (ou irmã) ficávamos brincando no parquinho até dar a hora de voltar para o trabalho. Era muito divertido. E éramos crianças, afinal. Brincar no parquinho era um grande momento do dia.

Naquele mesmo ano (1971) também trabalhei como ajudante numa padaria (Rouxinol) que funcionava no início da Av. Aristiliano Ramos, nas imediações da Rádio Mirador. O trabalho começava cedo, 5 horas da manhã. Tratava-se de ajudar o padeiro a preparar a primeira fornada de pão; lavar toda a cozinha (água jogada pra todo lado) depois secar tudo com pano. Terminada a limpeza era hora de carregar a Kombi da padaria com caixas e pacotes de pão e leite e sair para distribuir nas vendinhas e armazéns dos bairros e do interior. Tudo isso antes das 8 horas da manhã. Daí voltava pra padaria e começava tudo de novo com a preparação de mais pães, doces e cucas que seriam vendidos ao longo do dia. O trabalho era duro, mas, em compensação, podia comer pão à vontade. E eu adorava pão de padaria.

Eu trabalhei também numa Empresa chamada São Jorge que fazia artefatos de madeira (colher de pau, farinheiras, cumbucas, rolo de macarrão e brinquedos como bilboquê e pião). A fábrica ficava na Rua Dom Bosco, no bairro Jardim América. Eu era um ajudante de serviços gerais. Tinha apenas 12 anos e, evidentemente, não poderia trabalhar com tornos e ferramentas metálicas perigosas. Então, só carregava coisas pra cá e pra lá, ajudava a carregar e descarregar caminhões e fazia limpezas.





NENHUM DESSES EMPREGOS pagava um salário fixo nem tinha carteira assinada. Eu queria era ter um emprego sólido como o meu irmão, que trabalhava na Fundição Estrela, onde tinha carteira e batia ponto. Então, de vez em quando eu ia lá e pedia emprego pra eles. A resposta era sempre a mesma: "quando tiver alguma coisa a gente avisa o Padilha" (o Padilha, no caso, era o meu irmão, Carlos Alberto).

Então, num belo dia de março de 1972 o Carlos chegou em casa e deu a boa notícia: "É pra tu ir amanhã lá na Fundição, que tem uma vaga pra ti". Foi uma noite de ansiedade. Finalmente eu iria ter um emprego de verdade, com carteira assinada e salário fixo.

O horário de trabalho era bem pesado: começava às 6h30 da manhã e encerrava às 18h30. Tinha um intervalo de 15 minutos para o café da manhã (às 8h30), um intervalo de uma hora e meia para o almoço (ao meio dia) e outro intervalo de quinze minutos para o café da tarde (às 15h30). Ao todo eram 10 horas de trabalho por dia.

Mas havia os dias de fundida. Ah, os dias de fundida!

A Fundição Estrela (existe até hoje) fabricava artefatos de ferro fundido: panelas, parolos, chapas de fogão à lenha e panelas de freio para indústria automotiva entre outras coisas. Essas peças eram moldadas em caixas de areia fina e, quando todas as caixas estavam prontas era o DIA DE FUNDIDA.

O forno era ligado e a temperatura interna chegava aos 1600 graus centígrados (acima dos 1538ºC necessários para derreter o ferro). O ferro derretido saia do forno para "panelas" metálicas revestidas de barro e daí seguia para fundir cada uma das peças nas respectivas caixas.

O processo era semelhante a esse mostrado AQUI neste vídeo (mas o forno da Fundição Estrela era muito maior)

O dia de fundida era um dia de trabalho intenso. Geralmente começava mais cedo do que o normal (4 ou 5 horas da manhã, dependendo do caso). O calor era infernal. Não existia nenhum tipo de Equipamentos de Proteção Individual. Era um salve-se quem puder! De vez em quando saia um empregado com uma queimadura no pé, nas pernas, na mão... ninguém saia de lá sem uma cicatriz de queimadura.

Os chefes eram rigorosos, mas não maltratavam nem batiam nos empregados. Você pode achar estranho eu dizer isso, mas não era incomum, na época, que os chefes, nas fábricas, batessem em empregados que não obedeciam ou não trabalhavam direito. E isso era considerado normal. Não gostou? Rua!

Mas o Seu Alécio e o seu Lindolfo (os chefes na Fundição Estrela) até que eram bem humanos e apenas exigiam muito empenho no trabalho e, principalmente, na pontualidade.



Muitos anos mais tarde, já engenheiro, com escritório em Rio do Sul (1990), acabei prestando um serviço para a empresa do Seu Alécio (agora empresário na cidade). Foi um reencontro emocionante, pois quando ele entrou em contado com o escritório de Engenharia Elétrica não fazia ideia de quem fosse o engenheiro. Conversamos muito e ele me disse que na época, quando eu era menino, na Fundição Estrela, eu era muito trabalhador e obediente. Essas eram qualidades muito bem avaliadas, na época.



Voltemos à Fundição Estrela. O meu trabalho, junto com o meu irmão Carlos e o Eli Vieira (um grande amigo que eu tenho até hoje) era preparar o forno entre uma fundida e outra. Depois que terminava aquela empreitada de fundir as peças, o forno era desligado e ficava esfriando por umas 24 horas. Não chegava a esfriar completamente, a temperatura baixava para uns 35 ou 40 graus. Então um de nós entrava no forno para fazer o conserto.

O forno era um cilindro metálico vertical com mais ou menos um metro de diâmetro e uns 8 a 10 metros de comprimento. Era revestido, internamente, por tijolos refratários (aqueles brancos, de churrasqueira) que eram afixados com uma argamassa feita com barro.

No final de cada fundida o revestimento interno do forno ficava quase completamente destruído. Então o nosso trabalho era entrar lá, quebrar e retirar, com marreta e talhadeira, os restos de ferro e escória, e depois refazer as paredes com novos tijolos refratários.

Depois de prontas as paredes internas do forno deveriam ser cobertas por uma massa de grafite que era misturada e passada com as mãos (aquela sujeira não saia das mãos e das unhas nem com toda água e sabão do mundo. Era um terror!)

Na Fundição Estrela eu trabalhei por dois anos, (do início de 1972 até o início de 1974). Nos meus 13, 14 anos eu gostava muito de ler. Nas férias que eu passava em Florianópolis, na casa do Tio Nelson e da Tia Márcia, aprendi a gostar de ler jornais. Com o pouco dinheiro que me sobrava, comprava, quase todos os dias, o Jornal de Santa Catarina, recém lançado jornal estadual publicado em Blumenau e que era vendido por ambulantes em Rio do Sul. Começava a ler o jornal pela página de esportes, evidentemente. Mas, como não havia muitas opções de leitura em casa, acabava lendo o jornal inteiro.

E foi assim que eu comecei a perceber que existia um mundo em que as pessoas trabalhavam de roupa limpa. Trabalhavam sentados, em escritórios. E não precisavam trabalhar nos sábados. Era isso o que eu queria pra mim. Então me decidi: ia fazer um curso de datilografia. Afinal, sem datilografia eu não poderia querer trabalhar em um escritório.

Me matriculei na escola de datilografia da Dona Gertrudes Cardoso, ali na Rua Bela Aliança, no final da Rua São João. Mas havia um problema. O último horário da escola era das 19h até 20h e o trabalho na Fundição Estrela ia até 18h30. Não havia tempo para sair do trabalho, ir até em casa, tomar um banho e chegar em tempo para a aula em meia hora.

Fui então conversar com o chefe do escritório, que era quem decidia tudo (nem vou dizer aqui o nome dele) e pedi que ele me permitisse sair meia hora mais cedo para poder fazer o curso.
Para minha surpresa a resposta foi NÃO.

Fiquei muito revoltado! Inconformado. E, como já estava insatisfeito com outras coisas, pedi demissão. Estava decidido a mudar de vida!

Arrumei um emprego de servente de carpinteiro com o Sr. Ibrain, numa reforma lá na rua XV de Novembro. O trabalho começava 7h da manhã e encerrava 17h30. Dava tempo pra fazer o curso de datilografia.

O resto da história eu conto em outro artigo.




www.eniopadilha.com.br

PADILHA, Ênio. 2020






Sobre o que foi dito na primeira linha deste artigo: começar a trabalhar com 15 ou 16 anos, ok. Não vejo nenhum problema. Mas 11, 12 anos não é bom. É uma crueldade que mata sonhos e interrompe uma fase importante da vida, além de impedir uma transição saudável entre o ser criança e ser adolescente.




Muitas informações para a composição deste artigo contaram com a memória de inúmeros amigos que fazem parte do grupo facebook.com/groups/Antigamenteemriodosul.
Agradeço muito o carinho e atenção.

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NOTAS AUTOBIOGRÁFICAS

CRÔNICA DA CRISE



(Publicado em 16/03/2020)



Desde o dia 16/03/2020, Primeiro dia do isolamento social voluntário (quarentena) aqui na OitoNoveTrês (por conta da crise do Covid19/coronavírus) estou escrevendo e publicando
no nosso site um artigo por dia.
Em alguns dias são dois textos publicados.

Quando tudo isso passar (e vai passar) pelo menos eu e meus leitores teremos o registro do que era objeto da minha atenção nesses tempos estranhos.

Veja todos:

(clique sobre a imagem acima)

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ARQUITETURA

EMPREENDER ARQUITETURA



EMPREENDER ARQUITETURA — CAU/SC
N11 — OBSTÁCULOS E ARMADILHAS NAS NEGOCIAÇÕES
DE SERVIÇOS DE ARQUITETURA



Vídeo número 11 do Projeto EMPREENDER ARQUITETURA do CAU/SC. Apresenta os principais obstáculos e armadilhas que atrapalham os profissionais durante uma negociação de serviços de Arquitetura.

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Negociar e vender serviços de Arquitetura não é fácil.

Afinal, não se trata de vender ingressos para a final da Copa do Mundo. Não é um produto com mais gente querendo comprar do que a disponibilidade do profissional?

Depois que uma negociação se estabelece, muitos obstáculos e armadilhas surgem no caminho e precisam ser identificadas e tratadas adequadamente.

Elaboramos aqui uma lista com os 10 maiores obstáculos enfrentados pelos profissionais durante uma negociação.





LINHA DO TEMPO DESTE VÍDEO
1:20 — Como a lista foi produzida
2:31 — Lista das dificuldades "normais"
3:29 — Lista das dificuldades ligadas à questão do preço
5:19 — Discussão detalhada de cada uma das dificuldades
18:46 — Conclusões



Clique AQUI ou na imagem acima para ver o vídeo completo no canal do CAU/SC no YouTube




LEIA TAMBÉM:
Artigo: FUNDAMENTOS DE UM BOM VENDEDOR DE SERVIÇOS DE ARQUITETURA OU ENGENHARIA
(texto integral do capítulo 6 do livro NEGOCIAR E VENDER SERVIÇOS DE ARQUITETURA E ENGENHARIA)


Clique AQUI para ter acesso a todos os vídeos já publicados.