Ênio Padilha - engenheiro, escritor e palestrante - www.eniopadilha.com.br


"Viver num mundo sem tomar consciência do significado do mundo é como vagar por uma imensa biblioteca sem tocar os livros."


DAN BROWN
(no livro "O Símbolo Perdido", de 2009)

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Artigo

POR QUE É QUE A GENTE É ASSIM ?

Sábado, 01 de janeiro de 2000 - 00h00min


É na Escola de Engenharia que começa a ser destruída a nossa auto-estima. É na Escola de Engenharia que começa a ser forjado o nosso comportamento autodestrutivo, nosso desprezo pelos valores da própria profissão, nosso desgosto com a nossa própria atividade profissional. É na Escola de Engenharia que nasce a nossa falta de coragem empresarial e essa submissão inaceitável aos caprichos dos clientes.

Engenheiros, Médicos, Arquitetos, Advogados, Agrônomos, Dentistas...

Uma coisa leva à outra: toda vez que, numa conversa qualquer, o assunto “comportamento no mercado” vem à tona acabamos caindo nas inevitáveis comparações de engenheiros, arquitetos e agrônomos com médicos, dentistas e advogados...

Quando me perguntam o que eu acho disso (dessa comparação de profissionais tão diferentes) respondo sempre a mesma coisa: acho que essa comparação é JUSTÍSSIMA.

Se eu, engenheiro, por qualquer motivo, tiver de ser comparado com outros profissionais, acho muito justo que seja com médicos, com dentistas ou com advogados. Afinal temos muito mais coisas em comum do que diferenças. Somos todos prestadores de serviços. Nosso produto (nosso serviço) é altamente especializado e todas essas atividades demandam profissionais com capacidade intelectual diferenciada. Ninguém chega a ser médico, advogado, dentista, agrônomo, arquiteto ou engenheiro apenas por ter um belo par de olhos, uma voz doce, algum dinheiro no banco ou um padrinho influente... A conquista de qualquer um desses títulos demanda qualidades e habilidades especiais, muito estudo e empenho (às vezes até muitos sacrifícios).

Temos, é verdade, muitas semelhanças, quando a comparação é feita no nível da qualificação. Porém, no exercício das profissões e no comportamento empresarial de cada grupo as diferenças aparecem e são enormes. Neste texto concentramos nossas reflexões sobre a formação dos profissionais de Engenharia. No entanto, nossa experiência e a convivência com milhares de arquitetos e agrônomos dos mais distantes lugares do Brasil nos permitem acreditar que os conceitos podem se estender sem problemas também para esses profissionais. Voltemos no tempo.



Voltemos ao tempo em que essa pessoa (que hoje é um engenheiro) tinha seus quinze, dezesseis anos, um ou dois anos antes do vestibular. Esse moço ou essa moça é, muito provavelmente, um dos melhores alunos da sua sala (talvez da escola). É um expoente estudantil, requisitado pelos colegas, elogiado pelos professores, respeitado pelos pais (de quem é motivo de muito orgulho) valorizado pelos parentes, pelos vizinhos, admirado pelas garotas (ou garotos).

Comparemos nosso amiguinho com o estudante de quinze ou dezesseis anos que virá a ser médico, dentista ou advogado.

Veremos quase nenhuma diferença.

É isso mesmo. Na origem, são todos iguais. Têm o mesmo perfil, a mesma história, o mesmo rendimento. Todos são brilhantes e bem sucedidos.

Vem o vestibular. Ingressa, cada qual, na faculdade que escolheu... E é aí que as diferenças começam a aparecer. Os estudantes de medicina e de odontologia são enquadrados em um ambiente novo, com pessoas que se vestem de uma maneira diferente, se comportam de uma maneira diferente e que estabelecem uma identidade visual (e, por decorrência, uma identidade psicológica) com a atividade profissional que irão exercer alguns anos depois.

Os estudantes de direito, já nos primeiros meses de escola convivem com professores que vêm para as aulas de terno, gravata, sapato social, barba feita ou bem cuidada. E o mais interessante: aqueles senhores e senhoras respeitáveis, bem vestidos e de fina educação (os professores), tratam os seus alunos por “senhor” ou “senhora”, com toda a fineza e educação que a prática profissional recomenda. E estimulam seus alunos a acreditar e se convencerem de que são superiores. Que estão se preparando para “falar com o Estado” (privilégio que não é concedido a nenhum outro profissional...). Enfim, aprendem que precisam respeitar os outros, mas aprendem, antes de tudo, que precisam exigir respeito para si.

Nos últimos anos de faculdade, estudantes de odontologia e medicina já se vestem como se médicos ou dentistas fossem. Freqüentam clínicas e atuam como profissionais na área da saúde. Assumem, enfim, um ou dois anos antes de terminada a faculdade, todo um comportamento típico de médico. De dentista.

Os estudantes de Direito, por sua vez, a partir da Segunda metade do curso, já se vestem como advogados (roupa social, sapato, eventualmente gravata e um terno ou blazer...). Mantém com os seus professores e com os seus colegas um comportamento e um vocabulário apropriados para as lides jurídicas. E, o mais importante: são tratados, pelos seus professores, como Doutor. (Dr. Fulano, termine seu relatório até a próxima aula. Dr. Sicrano, esteja preparado para a prova final, na sexta-feira.). Apesar de ainda não terem concluído o curso.



Os estudantes de engenharia, ao contrário, a partir do início do curso, a única diferença que eles conseguem perceber na faculdade, em relação ao ensino médio é o grau de dificuldade (que simplesmente quintuplica!).

Não existe nenhum estímulo a um comportamento novo, nenhuma referência, um exemplo positivo de comportamento. Nenhuma motivação para um desenvolvimento psicológico alternativo. Nenhum elemento que interfira na formação do profissional do ponto de vista da sua imagem física composta de aspectos visuais e comportamentais. A vida social, no ambiente da faculdade, é muito restrita, quando não inexistente.

Além do mais, a faculdade entra na vida desses jovens como um elemento de ruptura. Os alunos são colocados em uma condição a que eles não estavam acostumados. Estavam acostumados a tirar notas máximas com a maior facilidade e, de repente, passam a sofrer e ter grandes dificuldades para obter notas mínimas ou médias. Deixam de ser respeitados pelos seus professores que se tornam distantes e autoritários e perdem a admiração dos colegas que estão todos desesperados tentando se salvar de uma coisa que ainda não estão entendendo direito.

Não que as faculdades de medicina, direito ou odontologia sejam fáceis. Ocorre que lá os estudantes têm compensações psicológicas que os estudantes de engenharia não têm. Essas faculdades, por diversos mecanismos, inexistentes nas escolas de engenharia, dão continuidade ao amadurecimento psicológico e social do futuro profissional. E, com isto, mantêm em alta a motivação e auto-estima dos seus estudantes.

Na engenharia não existe nenhum processo de acompanhamento psicológico para aquele estudante desesperado que teve a sua carreira de sucesso estudantil subitamente interrompida (mesmo os alunos que continuam conquistando notas altas, acabam sentindo a falta do aplauso dos colegas, do respeito dos professores e da admiração coletiva). E não existe ninguém para explicar o que está acontecendo. Ninguém para dizer a este estudante que ele não é tão inepto ou incapaz como, algumas vezes os professores parecem querer provar.

É quase geral, por parte dos professores, nas escolas de engenharia, a manifestação desnecessária de superioridade intelectual, o exercício gratuito de poder e o terrorismo psicológico.

E o estudante, que entrou na faculdade no auge positivo da auto-estima, vai recebendo, ao longo de cinco anos, das mais variadas formas, uma única mensagem: “Você não é tão bom quanto você pensava que fosse !”.

Ao contrário dos estudantes de direito, medicina ou odontologia, que têm como professores, profissionais que atuam no dia-a-dia de suas atividades, os estudantes de engenharia passam cinco anos submetidos aos rigores (e, em alguns casos, caprichos) de engenheiros que não atuam, profissionalmente, como engenheiros e sim como professores, e que, portanto, não têm a vivência da atividade profissional e não têm a ciência ou a consciência das relações comerciais que vão definir o sucesso ou o fracasso dos profissionais que eles estão formando.

Como resultado disso, ao final de cinco anos, o estudante de engenharia se transforma em um engenheiro. E este engenheiro é completamente desprovido de auto-estima, de respeito próprio, de prazer profissional ou de consciência de mercado. Na metade do último semestre da faculdade, dois meses antes de receber o diploma e ser entregue aos leões do mercado, o estudante de engenharia ainda é tratado como mero es-tu-dan-te.

Em momento algum, durante a faculdade, o estudante de engenharia é tratado como engenheiro, em momento algum, durante esses cinco anos, a escola propicia a percepção da mudança de condição de estudante para a condição de profissional.

Estudantes de direito, medicina e odontologia, ao contrário, muito antes do fim da faculdade já têm uma noção razoavelmente clara das dificuldades do exercício profissional que eles irão enfrentar. Com isso vão desenvolvendo mecanismos psicológicos de defesa e saem da faculdade com maior grau de segurança. Entram no mercado profissional de cabeça erguida, com uma consciência de valor. E com todo o processo de construção da imagem profissional em andamento. Estudantes de engenharia não são estimulados a se vestir bem, nem a ter preocupações com técnicas de comunicação ou relacionamento social ou de exercício intelectual não linear. Com isso acabam não desenvolvendo habilidades gerenciais ou de relacionamento com o mercado.

Esta é uma das razões pelas quais as organizações de engenharia são, quase sempre, extremamente burocráticas e conservadoras.

Engenheiros (ao contrário de advogados, médicos e dentistas) não comandam seu ambiente de trabalho. Por mais que detenham o conhecimento e a técnica, os engenheiros são, via de regra, pouco influentes em relação ao produto final, seja uma construção, uma instalação, um empreendimento complexo ou um processo produtivo.

O mais lamentável é que os engenheiros, via de regra, só vão perceber os resultados da negligência com a imagem física, a comunicação não-verbal e o comportamento no mercado, depois de já terem acumulado muitas perdas desnecessárias (algumas das quais, infelizmente, irreversíveis).



E qual é a utilidade desse discurso? Qual a importância de se colocar este tema no papel? Porque tornar pública esta opinião, que, com certeza aborrecerá alguns segmentos? Ninguém é ingênuo a ponto de acreditar que a simples leitura deste ensaio leve um diretor de escola de engenharia, um professor, um estudante ou um profissional de engenharia a alterar o seu comportamento. O que se espera é que essas pessoas, a quem o texto é dedicado, tenham um momento de reflexão. E que a esse momento de reflexão se siga uma atitude. E que essa atitude tenha como objetivo dar um futuro melhor para a engenharia no Brasil.

A engenharia depende dos engenheiros. E os engenheiros começam a ser formados aos quinze ou dezesseis anos, ainda no ensino médio.

Eu ainda acho, como sempre achei, que o conhecimento científico que é transmitido aos estudantes durante a faculdade de engenharia é fundamental. E que o valor da engenharia está sustentado na capacidade intelectual e técnica dos seus profissionais.

No entanto, vejo como importantíssima uma nova visão, nesse processo de formação do engenheiro, que leve em consideração todo o relacionamento social dos estudantes entre si e com os seus professores. É importante que, aos estudantes, seja transmitida uma visão mais clara das relações comerciais que eles enfrentarão na vida profissional, seja na condição de profissionais autônomos, empresários ou empregados em alguma empresa.

Em qualquer um desses casos as relações sociais são elementos definitivos para o sucesso. É um “detalhe” que faz toda a diferença.

O estudante chega ao curso de Engenharia cheio de sonhos com a auto-estima elevada, transpirando confiança e auto-respeito. É muito triste que, dez ou quinze anos depois esse potencial tenha se transformado em um sujeito cabisbaixo, sem consciência de valor, destituído de auto-estima e respeito próprio. Abrindo mão da sua natural vocação de agente do desenvolvimento para ser mero instrumento de trabalho para terceiros.

Na Escola de Engenharia o engenheiro precisa ser “construído” para ser um vencedor. Precisa ser estimulado a acreditar no seu potencial. Confiar na sua inteligência. E, acima de tudo, precisa aprender a importância de manter a cabeça erguida.



ÊNIO PADILHA www.eniopadilha.com.br
(artigo_ep)








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Comentários

Egydio Hervé Neto - Engenheiro Civil - Porto Alegre

Quarta, 06 de setembro de 2006 - 13h08min

Caro Ênio: Já havia lido, tempos atrás, este seu artigo. Outro dia conversava com um colega e relembrávamos aquelas aulas de Física, à noite, no inverno rigoros dos gaúchos, no imenso auditório da UFRGS. \"Uma carga pontual encontra-se em um campo magnético...\". Coisa incrível! Havíamos estudado no Científico aquele livrão de Física (não lembro a autoria) e depois, no primeiro esegundo ano de Engenharia tínhamos que estudar nos dois livrões (Física I e II) do Hollydai-Resnicks (lembro do nome, não como se escreve, são 40 anos de memória!). Daí pode-se imaginar muitodo massacre de que falas em teu artigo. Não havia nada que nos fizesse sentir melhores. Mesmo com notas máximas em algumas provas, ficáva-nos a sensação de \"sorte\", não de conhecimento... Era a famosa \"lavagem cerebral\" de que os Engenheiros tanto se queixam: \"estudei horrores de coisas que nunca apliquei!\" dizem os mais experientes. De fato. Aquilo serve para nos \"abrir a mente a machadadas!\". Depois continuo...


Egydio Hervé Neto - Engenheiro Civil - Porto Alegre

Quarta, 06 de setembro de 2006 - 22h46min

Este poderoso instrumento para fortalecer a nossa mente e transformar-nos em um Engenheiro - o estudo forte e obsessivo com poucos resultados práticos imediatos e até mesmo com certo \"cheiro de fracasso\" - é ralmente eficaz. Nada afasta um Engenheiro de seu objetivo. Nenhuma profissão cria tão fortes e obsessivas personalidades que perseguem os resultados não em busca do sucesso, mas, sim, em busca do acêrto, do resultado correto. Nós somos assim! Engenheiros são assim! Mas isto, que deu certo e despertou admiração e respeito durante tantos anos, não está servindo mais! Será? Mas é verdade! Nós Engenheiros estamos tão acostumados a lutar e encontrar um resultado certo para as nossas realizações profissionais, que não nos preparamos para o fracasso social! Do alto de nosso pedestal, sólidamente construído sobre uma base inexpugnável, não percebemos que as pessoas foram se afastando, procurando meios mais fáceis de lidar com a vida e os Engenheiros,esses são muito \"exigentes\"...


Egydio Hervé Neto - Engenheiro Civil - Porto Alegre

Quarta, 06 de setembro de 2006 - 22h59min

Realmente, não lidamos com as pessoas de modo a valorizar as suas idéias. Nãolidamos com as pessoas de modo a \"mantê-las no comando\" de suas idéias, de suas necessidades,de seus desejos. Qualquer corretor sabe o que mais \"vende\" em matéria de moradia, escritório, terreno, indústria. Mas o Engenheiro não está preparado para isto. Para qualquer solicitação tem uma iéia própria, exata e \"melhor\" para o seu cliente, mesmo que esta idéia não seja o que o cliente quer. Mas \"será que o cliente sabe o que quer?\" pensamos. Dentro de nossa visão própria e universalista não há espaço para errar, não há espaço para opiniões que não atendam ao nosso objetivo. Não fomos preparados para um mundo que deseja criar, errar, liberdade, diálogo, poder. O \"poder\" é o que as pessoas mais necessitam hoje! Lidar com um Engenheiro, pasmem é renunciar ao poder sobre seus próprios desejos, seus próprios sonhos! Será que somos assim? Sim, como muito bem coloca Ênio Padilha, falta-nos o item \"relações sociais\".


Egydio Hervé Neto - Engenheiro Civil - Porto Alegre

Quarta, 06 de setembro de 2006 - 23h07min

Sim, em nosso curso não fomos orientados a obter o sucesso junto com a sociedade. Não fomos respeitados e assim não aprendemos a respeitar. Nossos professores nada sabem de estima, cortesia, relações sociais? Lógico! São Engenheiros!?! Lidaram com o mesmo tipo defrustração, adquiriram esta síndrome da \"auto-estima deficiente\" aliada a um conhecimento desproporcionalmente profundo e lidam com isto como quem usa um remédio forte demais para curar uma doença e criam outras em seus \"pacientes\" (clientes) afastando-os. Passamos então a ser entendidos como uma \"necessidade legal\", não como uma solução adequada. E aí - \"perdoai-os Senhor eles não sabem o que fazem\" -, os \"canetinhas\" e outras soluções corruptas, sempre presentes como parte do \"jeitinho brasileiro\", crescem e florescem a olhos vistos nesta sociedade prática e amoral. Então como lidar com isto?


Helton Moraes - Médico do Trabalho - Porto Alegre

Quinta, 21 de setembro de 2006 - 13h46min

Achei bastante interessante este texto, contendo vários pontos sobre os quais é válido refletir, e também tenho vários pontos dos quais me sinto inclinado a discordar.
Sou médico do trabalho formado pela FFFCMPA há 4 anos, mas por questões pessoais, como personalidade e vocação, estou cursando o segundo ano de engenharia mecânica, na UFRGS, curso do qual estou gostando muito.
Um dos motivos é que, ao contrário da faculdade de medicina, a aura de \"pompa\" e o empolamento típico dos professores de medicina e direito desaparece, e, como falaste em teu texto, exceto pelo abismo tem termos de dificuldade e rigor do conteúdo e avaliação, a diferença com relação ao ensino médio é menos evidente.
Senti durante minha primeira faculdade, de medicina, especialmente na segunda metade do curso, que o professor médico é muito mais professor do que médico, e está dando aulas movido por certa vantagem mercadológica em ser professor.

E por uma vantagem mais mercadológica do que acadêmica na formação de seus futuros "colegas de profissão". Por outro lado, creio que o aluno de engenharia se beneficie muito de professores que se dedicam à arte de ensinar, e com isso são menos propensos a falhas de didática, instabilidade de horários (com os conseqüentes atrasos ou ausências), desatualização dos conteúdos e indisponibilidade para atendimento fora do horário de aula. Creio que o talento para fazer e o talento para ensinar são independentes, e dentro do tempo limitado de que se dispõe no cotidiano, diria que é bastante raro o talento para fazer bem as duas coisas simultaneamente.

Eu destacaria, no curso de medicina, ao menos sob meu ponto de vista, que os "mecanismos de amadurecimento" do aluno, em direção a uma vida profissional, são em grande parte, baseados na baixa tolerância ao erro, ao comportamento competitivo e "julgador" dos colegas, e de grandes doses de terrorismo psicológico e exibições abusivas e desnecessárias de erudição acadêmica por parte dos professores. Como ainda não concluí o curso, não tenho uma amostra significativa de exemplos de professores engenheiros, mas nota-se que estão mais dispostos a interagir com os alunos e orientá-los, a não sonegarem conhecimento, e a se interessarem pelo aprendizado de fato. Considero bastante justa a avaliação rigorosa, pois a tolerância ou brandura na avaliação é porta de entrada para o mau profissional no ambiente de trabalho.

Para concluir, creio que o choque causado pela "síndrome do ex-melhor da turma", e as dificuldades de contato social, muitas vezes causadas pelo ego inflado e pela necessidade de auto-afirmação intelectual como forma de compensar a inabilidade social (mal de que os engenheiros costumam, em vários níveis, padecer), além do afastamento necessário para os estudos, estejam muito associados à imaturidade pessoal com que os alunos de engenharia, via de regra, ingressam no curso. Isso pode ser também estendido para outros cursos difíceis, como direito e medicina, por exemplo. Acredito que os estereótipos que citaste em teu texto (advogados e médicos sérios, bem arrumados, e ao mesmo tempo altivos e fleumáticos, quando não arrogantes, em oposição a engenheiros alienados e com obcessão pelo detalhe técnico) são frutos do fenômeno que se observa sistematicamente em nossas universidades, que é a personalidade se moldando ao ambiente acadêmico.

Ao invés disso, o meio acadêmico deveria servir como um complemento profissionalizante da personalidade em desenvolvimento, personalidade essa que de forma alguma deveria ser marcada pela machadada acadêmica como uma árvore é permanentemente deformada por um raio.
Creio que alunos mais maduros (leia-se mais velhos e menos pressionados a entrar no meio universitário a qualquer custo e o mais rápido possível), com adequado ambiente familiar, com mais experiência de vida e de trabalho, e especialmente com uma orientação vocacional - e métodos de seleção para o ingresso no curso - que não priorizem a capacidade intelectual e o valor de mercado sobre a motivação, o interesse e o talento pessoais, teriam mais condição de perceber que a idéia de "estarem sendo obrigados a aprender coisas que nunca vão usar" é totalmente equivocada, e que o verdadeiro conhecimento não reside em depositar na cabeça todo o avassalador volume de informação recebido em um curso de engenharia mas sim em saber o que fazer com esse conhecimento, que pode (e deve, na maior parte das vezes) permanecer nos livros e tabelas.


Ênio Padilha - Engenheiro Eletricista - Balneário Camboriú

Quinta, 21 de setembro de 2006 - 16h16min

Prezado Helton

Seja muito bem-vindo ao nosso site. E seja bem-vindo, também, ao mundo da engenharia.

Seus comentários são muito inteligentes e devem ser (e serão) analisados com muito carinho.

De qualquer forma, tente se imaginar entrando no curso de engenharia sem a maturidade e a auto-estima decorrente do fato de o senhor já ser médico.
A sua leitura da situação certamente não seria tão lúcida.
O desespero e a insegurança certamente tornariam as coisas mais complicadas

Quanto a este artigo, estou desenvolvendo um grande estudo sobre este tema. Provavelmente resultará em uma publicação que (eu espero) seja bastante consistente.

Nesse estudo o pressuposto básico é o seguinte: 'Não é só isso'. Ou seja,este artigo apresenta apenas um recorte dessa realidade e ajuda a explicar apenas uma parte do todo.

Muitas outras questões precisam ser consideradas. Questões, por exemplo, como essas que o senhor colocou no seu comentários.

Nesse meu trabalho eu vou dedicar alguns capítulos aos profissionais que, além de terem cursado Engenharia tenham também cursado Direito, Medicina ou Odontologia, exatamente para tornar a visão um pouco mais abrangente.

Espero concluí-lo até o final do ano que vem. E espero poder contar com a sua ajuda.

Abraço e volte sempre.


Helton Moraes - Médico do Trabalho - Porto Alegre

Segunda, 25 de setembro de 2006 - 13h01min

Caro Ênio

Percebo que, como não poderia deixar de ser, os tópicos abordados pelo senhor constituem uma parcela de um panorama bastante abrangente, e que se não são regra, representam um fenômeno que acomete uma considerável proporção de estudantes e profissionais.

Estou à disposição para qualquer colaboração sobre o assunto que venha a ser útil.

Helton Moraes


Marcus Vinícius - Engenheiro Eletricista - Goiânia

Sábado, 05 de maio de 2007 - 14h24min

Caro Ênio Padilha,

Sem maiores delongas, parabenizo-o pelo artigo. É exatamente assim que me senti/sinto. Suas palavras esmiuçaram - com uma riqueza de detalhes embasbacante - o que ocorre aqui na Escola de Engenharia Elétrica da Universidade Federla de Goiás (e em todo país). Aqui em Goiás, onde muitas pessoas ainda confundem "engenheiro" com "eletricista", a situação é triste, pois além do nosso estado estar fora dos grandes centros tecnológicos, ainda existe um ranço provincianista de que o aluno deve "sofrer para aprender". Somos desestimulados a não questionar e estimulados a tapar os olhos diante das mudanças.
Parece até que o Sr. veio aqui e fez um estudo aprofundado de nossa situação. Com sua permissão, repassarei o link deste artigo para a Coordenação de Curso, pois seu artigo é mais que um desabafo, é um manifesto a favor de milhares de estudantes, que assim como eu, sentem-se desmotivados após cinco anos de sofrimento e não de aprendizado.


Flavio Kodama - Engenheiro Computacional - Sao Paulo / Campinas

Domingo, 08 de julho de 2007 - 20h25min

Artigo e comentarios excelentes.
Gostaria de frisar o comentario de Marcus Vinicius e o que ocorre de confundirem engenheiro eletrico com eletricista tambem ocorre de se confudir engenheiro/cientista computacional com um mero tecnico. Muito provavelmente essa confusao de ideias que se tem de profissionais de nivel superior ocorrem em larga escala em diversas areas.
Assim como pessoas comuns acham que qualquer medico resolve qualquer enfermidade ou qualquer advogado resolve qualquer processo, enfim. O que temos aqui é um problema da sociedade. Acredito que ao inves de forcar as pessoas a escolherem tao precipitadamente suas profissoes antes de ter uma visao sobre o mundo o ensino media deveria ser prolongado, assim como retardado o ingresso numa instituicao de ensino superior, assim poderia-se tanto aprender mais a respeito de outras profissoes(mundo) como tambem saber como/ onde/ quando requisitar servicos de tal necessidade. Caso isso nao venha a ocorrer continuaremos a ver se aprofundar alguns problemas como: a visao da sociedade de que é necessario ter conhecimento de engenharia para poder ser eletricista, é necessario ter conhecimento de farmacia para se vender remedios, é necessario ter conhecimentos contabeis para ser caixa de banco, é necessario ter conhecimento de advocacia para ser office-boy, é necessario ter conhecimentos computacionais para consertar falhas do windows.

O fato é que nao sabemos o que cada profissao faz realmente. Mas uma coisa é certa, um egenheiro é formado para projetar e nao assinar, consertar ou administrar. Coisas que veem acontecendo aos recem formados. Eles tem apenas tem tomado empregos de pessoas com ensino tecnico. O diploma se tornou apenas para ingles ver.


Pai de um estudante de Engenharia - Desembargador - São Paulo

Segunda, 09 de julho de 2007 - 11h49min

...

O comentário feito pelo leitor acima foi bloqueado, em função do ANONIMATO, que não é autorizado pelo nosso site.
Caso o leitor se identifique, teremos o maior prazer em publicar o seu comentário

Ênio Padilha


Josadarck Tomaz Coutinho - Estudante de Engenharia Computacional - Campinas

Segunda, 09 de julho de 2007 - 13h59min

Essa preocupação prévia de quem está se formando é mais típica para aquele que está com a cabeça vazia, do que propriamente aquele que se encontra mergulhado nos estudos e preocupado em apreender cada vez mais. Jalecos e o título precoce de doutor não assinam diplomas nem qualificam ninguém a nada. Fosse assim, imagine a personalidade do milico, que entra na academia é, como cadete, é tratado como "bicho", depois, com o passar dos anos, sempre vendo pela frente alguém com uma "patente" superior. Forma-se como aspirante, mas tem o tenente; é promovido a tenente, mas tem o capitão; chega a capitão, tem o major; já major, bate continência para o tenente-coronel e assim por diante.

O bacharelando em direito, embora vista terno e gravata e seja chamado pelos professores de doutores, na vida real, fora da faculdade, são, como se diz no linguajar forense, "escraviários", e desempenham, para os escritórios, verdadeiro papel de office-boys; os médicos e odontólogos, com seus jalecos brancos, na vida real, são massacrados pelo turnos das residências, péssima remuneração (também comum aos alunos de direito), e a triste visão da realidade dos desdentados e dos prontosocorreos de periferia. E os engenheiros? Aqueles que realmente estudaram e se dedicaram ao aperfeiçoamento técnico, estão é nos grandes escritórios, trabalhando nas grandes construções; estão nas hidroelétricas, na microsoft, na google etc. Talvez nem usem jalecos nem sejam chamados de doutores. Mas, certamente, estão enbevecidos com suas realizações; e o dimdim está nas contas bancárias. O resto é bobagem.


Lia Mara Fischer Pereira Knebel - Engenheira de Segurança do Trabalho - Florianópolis

Terça, 11 de setembro de 2007 - 14h14min

O que vimos é que o Construtivismo da Pedagogia Moderna passou longe das escolas de engenharia.Fomos bravos guerreiros capazes de entender cálculos diferencias e integrais, mecânica dos fluidos, equações diferenciais...e, de tão ocupados em conseguir resolver provas difíceis, fomos nos fragmentando. Perdemos até a noção do "nosso todo" pessoal, já que nos dividíamos em cronogramas de estudos. Nosso raciocínio lógico foi usado para questões pontuais em sua capacidade máxima, mas ficamos com muitas dificuldades em integrar os conhecimentos. Houve uma falha pedagógica. Depois buscamos compensá-la com cursos de Gestão Empresarial, de Negociação, de Gestão de Pessoas, de Oratória...(que bom que eles existem!)
Talvez, devido a essas dificuldades é que foram criados os cursos superiores sequenciais e os superiores de tecnólogos, para conseguirem delimitar a área do conhecimento e facilitar a visão do "todo".
As escolas de engenharia precisam de uma grande reavaliação pedagógica.


Nayara Teixeira Rocha - Estudande de engenharia civil! - Chapecó!

Terça, 17 de junho de 2008 - 16h54min

hj voltei a ler...e como sempre chorei muito!!!
Mandei para várioas amigos meus do curso...acho que nós merecemos parabens por toda a nossa força pra seguir em frente!!!
Como já dizia na "carta a oswaldo montenegro"..."...Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio,que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca,pq metade de mim é o que grito,mas a outra metade de mim é silêncio..."..."Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor,apenas respeitadas como a unica coisa que resta a um homem inundado de sentimentos, pq metade de mim é o que ouço,mas a outra metade de mim é o que calo,que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço,e que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada,pq metade de mim é o que penso,mas a outra metade é um vulcão!!!que o MEDO da solidão se afaste e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos supportável..."


Nayara Teixeira Rocha - Estudande de engenharia civil! - Chapecó!

Terça, 17 de junho de 2008 - 16h58min

"...que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso que eu me lembro ter dado na infância,pq metade de mim é lembrança do que FUI, a outra metade eu não sei...que a ARTE(nossa arte de engenhar)nos aponte uma resposta,mesmo que ela não saiba,e que ninguém tente complicar pq é preciso SIMPLICIDADE para fazê-la florecer...."Enfim que minha loucura seja perdoada pq metade de mim é amor e a outra TBM!!!

Apesar de tudo amo muito o que faço...e eh esse amor que me leva à frente!


Mauricio Souza Fishe - engenheiro químico - Natal/RN

Quinta, 28 de agosto de 2008 - 14h26min

O artigo é muito realístico. Sou engenheiro químico formado pela UFRJ há pouco mais de uma década. Vi colegas que eram "zero um" do ITA ficarem 7 anos ralando para conseguir se formar na "Escola de Química" da UFRJ. Eram "gênios" e se tornaram alunos "fracos". Na prática a sequela na auto-estima foi feita, mas por outro lado estávamos nivelados por cima!!! Sou muito critico e afirmo com todas as letras: não aprendi a ser um bom engenheiro na faculdade, mas aprendi a ser um excepcional "fazedor de provas". Menos de 10% dos meus colegas de turma trabalham com engenharia. Porém graças a "ralação" hoje há colegas auditores fiscais da receita, oficial do quadro complementar da marinha, peritos da Policia Federal, engenheiros da Petrobras ( a salvação de muitos!!!rsrsrs), Analista do banco central, policia rodoviario federal, enfim, falou em passar em concurso? Todo mundo passou em algum!!! rsrs De toda forma, o ensino de engenharia deve ser revisto !!! Parabéns pelo excelente artigo.


Liliane - estudante de arquitetura - Palmas

Domingo, 05 de outubro de 2008 - 17h47min

Sou estudante de arquitetura e urbanismo e sinto também que há um grande desrespeito pelo aluno. No nosso curso nao temos tantos cálculos, por isso o massacre da auto estima acontece nas aulas de projeto. Voce chega com o projeto em sala para ser orientado pelo professor, ele ve que está bom e pede pra vc mudar tudo por causa de um mínimo detalhe que nao compromete o projeto como um todo. Entao vc quebra a cabeça passa madrugadas tentando fazer o que ele pediu sem perder a graça do projeto, quando chega na sala de aula e mostra, eles acabam com seu trabalham te chamam até de preguiçoso.
Já aconteceu de professores detonarem tanto meu trabalho que pensei em parar com o curso acreditando que nao tinha criatividade ou dom para a profissao, entao um profissional por acaso olhou o trabalho e achou o máximo e que se fosse construído aqui na nossa cidade seria uma quebra de paradigmas. Aos poucos os alunos começam a se sentir incapazes, meio deprimidos.
Sineramente acho ue a funçao de muitos professores é esta mesmo: detonar a auto estima dos alunos, afinal quem pode ser um bom profissional se nao acreditar em si mesmo... Acho também que os professores universitarios deveriam ser escolhidos nao só pela quantidade de títulos que tenham mas pela capacidade de encaminhar as pessoas a um futuro de realizações. Afinal o professor tem muita influencia na vida de seus alunos.


Rodnei Medeiros - Designer - São Paulo

Sexta, 10 de outubro de 2008 - 20h24min

Na minha opinião, o caráter de cada indíviduo tem características que são imutáveis, e outras, que aperfeiçoamos, ao lidarmos com exemplos de virtudes, em casa, na escola, na universidade, no trabalho.
Os valores básicos, como amor á família, honestidade, honra, respeito, estes são como a rocha, estes, dificilmente se quebram. Algumas pessoas não possuem estes valores básicos, mas, simplesmente por falta de exemplos honestos. Quanto a falta de autoestima, eu diria, que a vida nos faz sermos como o bambu. Extremamente flexíveis, hora nos vemos como aprendizes, sujando a mão no barro, própriamente dito, deitando ao chão, ao sabor do vento, realmente deitado ao solo nas tempestades, mas altivo, calmo e verdejante nas calmarias. Porque mesmo com todas as dificuldades, a autoestima sempre se eleva ao percebermos que estamos no caminho certo, cercado de valores imensos e maravilhosos, como a família, amigos, trabalhando honestamente e com dignidade.


felipe alencar - eng.eletrica - belém

Segunda, 16 de março de 2009 - 22h32min

aí sensacional esse texto..estou no 1° ano do curso de eng..eletrica na ufpa..antes de entrar no curso varias pessoas perguntaram pra mim no vest.."q curso vai fazer"respondia eng.eletrica,eles repentinamente falavam"aí tu és doido"...cara tds tem a imagem de q eng. é doido.relaxado..por justamente não haver um modo de vestimenta...me falaram antes de entrar no curso q é impossivel sair da faculdade de eletrica sem repetir nenhuma materia...q os professores são ruins.estou entrando no curso extremamente consciente do q vou enfrentar,porém muito intusiasmado...


Carlos Andrade Neto - Estudante de Eng. Elétrica-UFV - Viçosa-MG

Quarta, 25 de março de 2009 - 01h16min

De fato os cursos de engenharia são bastante puxados, porém ainda não havia parado pra pensar nessa questão da influência psicológica no estudante de engenharia.

Eu estou no 5ºsemestre do curso de eng. elétrica e de fato minha auto-estima não é a mesma de quando era calouro. Parece inevitável para todo estudante que ele sempre levará "pau" numa matéria específica do curso se este não se esforçar o suficiente pra merecer passar.

Depois de ler este artigo, minha mente com certeza abriu mais para o assunto. É evidente a falta de motivação nos professores das engenharias em geral. Talvez a raíz do problema esteja na história da sociedade brasileira. É fato que, aqui no Brasil, Direito e Medicina são os cursos de maior status. E a engenharia? Vai bem, obrigado.


Alberto Lima - Engenheiro Eletricista - Belém-Pa

Quinta, 26 de março de 2009 - 19h34min

Perfeito, o seu texto!
Principalmente a exposição da posição arrogante do corpo de professores dos cursos de engenharia. Mais preocupados em se auto-promoverem, do que ensinar, só que o mercado cobra caro por isso, e muitos professores viram o espelho de seus alunos!
Cheguei a ficar com "inveja branca" dos médicos e advogados! (risos!)


Luiz Felipe - Estudante de Engenharia Elétrica - Vitória

Quinta, 26 de março de 2009 - 20h58min

Concordo com alguns pontos abordados mas, em relação a maioria, estão desatualizados. Hoje já existe um elo maior entre as escolas de engenharia e a industria o que contribui para a praticabilidade do ensino, sem falar dos PETS e da iniciação cientifica e algumas de suas afirmações são relativas, dependem de varios fatores como a propria universidade, do local em que se esta cursando engenharia e do interesse do proprio estudante.


Ênio Padilha - Engenheiro - Balneário Camboriú

Quinta, 26 de março de 2009 - 21h01min

Certíssimo, Luiz Felipe.
Aliás, fico feliz que seja assim.
Este artigo eu escrevi em 2002 e eu reconheço que muitas coisas melhoraram desde então.
Espero que, daqui a uns 10 anos, este artigo não tenha mais valor nenhum (a não ser a sua contribuição, por menor que tenha sido, para mudar esse tipo de coisa)

Grande abraço


Érika - Estudante - Vitória da Conquista

Sábado, 28 de março de 2009 - 12h14min

Caro Ênio, não sou a pessoa mais indicada para discorrer sobre o assunto, porém ao ler o teu texto sentir que as suas generalizações comovem uma grande parte da parcelas de estudantes que sonham em ser estudantes de engenharia... Concordo que os estudante de medicina, direito, e odontologia são vistos perante a sociedade com outros olhos. Porém o teu texto arranca um sonho de muitos alunos que sonham em ser engenheiro de uma maneira muito ardua. Conheço engenheiros muito bem sucessidos e que amam o que faz.


Ênio Padilha - Engenheiro - Balneário Camboriú

Sábado, 28 de março de 2009 - 12h57min

Prezada Érika

Talvez você tenha razão. O texto pode desfazer alguns sonhos.

Mas é importante dizer que, se o texto arranca algum sonho, isso não é feito com mentiras ou exageros. São verdades.
O texto não contém toda a verdade e muito menos a única verdade. Mas não contém mentiras

Então, mais do que "arrancar sonhos de estudantes" eu estou dando a eles uma visão menos fantasiosa do que há pela frente.

Tenho duas filhas. Uma está na universidade (segundo ano de Odontologia na UFSC) a outra está no terceiro ano do ensino médio, à caminho da universidade. Nos dois casos dei a elas a seguinte orientação: antes de decidir pela faculdade a fazer, verifique todas as vantagens e benefícios do curso e da profissão. Mas não deixe de verificar as dificuldades e problemas típicos do curso e do exercício da profissão.
As universidades (na sua comunicação com o "mercado") tendem a glamourisar o curso e a profissão. Cabe aos pais apontar os obstáculos e armadilhas. Porque é o futuro da pessoa que está em jogo.

Outra coisa importante: eu me orgulho de nunca ter dito a nenhum jovem que não faça engenharia. Pelo contrário. Eu me orgulho muito de ser engenheiro e desejo isso para todo jovem que tenha essa pretensão. Nunca disse em nenhuma circunstância, que fazer engenharia não vale a pena ou que ser engenheiro não é uma coisa fascinante.
Pelo contrário. Concordo com você. Eu mesmo me considero um engenheiro bem sucedido e amo a engenharia.

Mas uma coisa não se pode deixar de dizer: se a pessoa achar que fazer engenharia é uma coisa fácil ela precisa ser alertada para o fato de que está enganada. Existem cursos fáceis e divertidos. Engenharia, definitivamente, não é um deles.

De qualquer forma, acho que você não teve a intenção de desqualificar o artigo. Embora eu entendo que você como estudante é, sim, uma pessoa "indicada para discorrer sobre o assunto", pois é uma potencial interessada no tema.

Por isso, gostaria que você refletisse sobre o tema e pode fazer seus comentários à vontade. Inclusive discordando do artigo e dos meus comentários, se for o caso.

Abraço


Evandro - Estudante - Técnico Integrado em Eletrônica/UTFPR - Curitiba

Domingo, 29 de março de 2009 - 21h41min

Concordo totalmente com o texto.

E agora pergunto: Como ficam os estudantes do médio-técnico em eletrônica, por exemplo, que é um curso muito próximo da engenharia, e com os professores do estilo do ensino superior?


Érika - Estudante - Vitória da Conquista

Terça, 31 de março de 2009 - 22h49min

Muito obrigada pela atenção dada ao meu comentário... Eu estive pensando no tema proposto por você por vários dias, inclusive a preocupação me permeou em todos os pensamentos, pois existem uma pessoa muito próxima a mim que passou em engenharia na UFS este ano, e ao ler o teu texto obteve um desanimo enorme, pensando até em fazer outros vestibulares no fim deste ano... Por isso que por ele decidir lhe escrever. Mas como você mesmo referiu,o curso de engenharia apesar de necessitar de modificações, integra uma boa parte de alunos que por mais que saibam do descaso que tem no curso, continuam dando o melhor de si, e se esforçando para se tornar um profissional renomado. Quem sabe então, a solução venha dai, o mundo precisa de pessoas que lutam pelo que quer, e não de pessoas que desviam o caminho tão sonhado por não quererem enfrentar os obstáculos encontrados a sua frente. Espero que com os seus argumentos, a conscientização das pessoas ocorra, para que milhares de sonhos vão por água a baixo. Obrigado pela atenção. Abraços


Érika - Estudante - Vitória da Conquista

Terça, 31 de março de 2009 - 22h57min

CORREÇÃO: Espero que com os seus argumentos, a conscientização das pessoas ocorra, para que milhares de sonhos NÃO vão por água a baixo.


Leonardo - Estudante Eng. Elétrica - Aracaju/SE

Quarta, 08 de abril de 2009 - 13h51min

Caro Ênio,

Não poderia deixar de enviar um comentário para parabenizá-lo por não mostrar a realidade dos cursos de engenharia, pois isso qualquer estudante cursando o segundo período já sabe, mas por fazê-lo com extrema clareza e precisão.

Estou no quinto período do curso de eng. elétrica na Federal de Sergipe e me senti o exemplo do texto. Sempre fui aluno exemplar e nunca tive problemas com matemática, normalmente gabaritava as provas. Hoje passei a ter ódio de estudar matemática.
Além disso, alguns professores pseudo-engenheiros querem apenas ser respeitados, e para isso fazem seu trabalho com extremo rigor e com caprichos desnecessários.
Confesso que por vezes pensei em desistir do curso, e o principal motivo não é nem os professores, pois desses eu irei rir ao término do curso, mas sim porque aqui na UFS, além dos "professores", as matérias de engenharia elétrica são ofertadas anualmente, ou seja, perdendo alguma você necessariamente atrasa o curso em um ano.

É uma realidade triste, até. Talvez se as pessoas soubessem da realidade do estudante de engenharia, respeitassem mais o profissional.

Abraço


Luciana Duarte - Arquiteta - Palmas

Domingo, 02 de agosto de 2009 - 11h57min

Dr. Ênio,
Parabéns por mais este artigo.
Realmente podemos ver o resultado deste processo de auto-estima desfacelada e falta de habilidade com o mercado de trabalho, refletido no retorno financeiro conquistado pelo arquiteto/engenheiro.


Valdinei Batista - Engenheiro Civil - GOIANIA

Sábado, 08 de agosto de 2009 - 11h16min

Enio, gosto muito de seus artigos, eles me ajudam muito ao lidar com pessoas e com situações complicadas encontradas todos os dias nas obras. Por mais seguras e capazes que as pessoas são, um texto bem escrito com palavras sábias sempre será bem vindo para provocar a reflexão. Obrigado e continue escrevendo esses textos com suas palavras sábias.


felipe - eletrica - Bochum - Alemanha

Quinta, 13 de agosto de 2009 - 18h51min

Esse artigo tem muito valor, estou na alemanha e sinto isso. So vemos teoria. Sem contar a baixa auto-estima (assim q escreve? facam um desconto ai, tem quase 3 anos que estou fora do brasil :) )


Ênio Padilha - Engenheiro - Balneário Camboriú

Sábado, 15 de agosto de 2009 - 05h44min

Tá feito o desconto, Felipe.
Mas é sem hífen, ok?
(Segundo a nova reforma ortográfica, não se usa o hífen quando o prefixo termina em vogal diferente da vogal com que se inicia o segundo elemento.
Exemplos: aeroespacial, agroindustrial, anteontem, antiaéreo, antieducativo, autoaprendizagem, autoescola, autoestrada, autoinstrução, coautor, coedição, extraescolar, infraestrutura, plurianual)

Quanto ao seu comentário, não esmoreça. O fato de haver muita teoria no curso é normal. Afinal, engenheiros precisam saber PENSAR. Por isso a carga de teoria é tão intensa.

Volte sempre.


André - Estudante - Eng. Elétrica - São Paulo

Quinta, 29 de outubro de 2009 - 01h30min

Caro Ênio,

Parabéns pelo seu artigo. Reflete o que eu penso e sinto. Sou estudante da escola politécnica da USP e infelizmente tudo que você ecreveu se aplica aqui.
Seria interessante você procurar no google pelos textos "A Poli como ela é" e "A escola dos homens tristes", que retratam a degradante vida na politécnica. Vale a pena.

Abs

Comentário de Ênio Padilha
Prezado André

Obrigado pelas dicas. O trabalho do Júlio borges eu já conhecia mas por outros textos. Este da Poli eu não conhecia. Li todo o Dossiê. Muito bom.

Quanto ao artigo do Paulo Bilkstein, anterior ao do Júlio, achei fantástico. Ele fez uma analogia simples porém certeira.

Acredito que tivemos alguns avanços nos últimos anos, mas ainda estamos à passos de tartaruga, infelizmente

Abraços


Ronilza Santos - engenheira de Produção - montes claros -mg

Sexta, 06 de novembro de 2009 - 22h16min

Caro Ênio...
Hoje tive o conhecimento do seu texto através de meu professor de Engenharia Auxiliada´por Computador.Nossa, como a leitura feita em sala de aula nos faz refletir sobre o Porque somos assim?
Nós Engenheiros não temos como nos destacar na sociedade, pois quando nos deparamos com uma pessoa toda de branco possivelmente é um medico, se está de terno e gravata, um advogado... e assim por diante.. e nós?
Só nos que estudamos todos aqueles cálculos,sabemos como penamos pra conseguir superar todos os obstaculos que o curso nos impoe...
Mas digo uma coisa, aos colegas que desejam cursar engenharia, nao desistam, porque mesmo com tantas dificuldades e limitações nao existe um curso que te leva a raciocinar e agir de uma maneira que vc nunca pensou antes, como eu agora,pois se nao fosse a Engenharia , eu nao estaria aqui enviando esta mensagem em resposta ao caro colega Enio..rsrrsrsr...
Tudo tem uma recompensa...
Nao e mesmo Ênio?

Comentário de Ênio Padilha
Você tem toda razão. E você está fazendo uma coisa que eu chamo de "regra número um da valorização profissional": nunca recomendar a um jovem estudante que não escolha Engenharia como faculdade ou que desista do curso em função das dificuldades.
Estou desenvolvendo uma pesquisa desde 2002 (ano em que eu escrevi o artigo "POR QUE É QUE A GENTE É ASSIM?) sobre as Características Distintivas de Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos (causas e consequencias) e tenho descoberto coisas interessantes. A principal delas é que isso que foi dito aí no artigo pode até ser verdadeiro, mas não é tudo. Tem muita coisa que não depende apenas da escola. São coisas que são características naturais dos engenheiros (é anterior à faculdade) ou produzidas pelas características do exercício profissional (são posteriores à faculdade).
A pesquisa fica pronta em meados do ano que vem. Pretendo publicá-la em agosto de 2010.


Ronilza Santos - engenheira de Produção - Montes Claros - MG

Terça, 10 de novembro de 2009 - 16h36min

caro Enio...
sou eu de novo, Ronilza.
Estou cursando o sétimo periodo de Eng. de Produção e preciso de uma ajuda.
Estou começando a pesquisar um tema para o meu artigo de conclusao de curso. Estou ainda meio que perdida, sem saber o que posso abordar. Voçê poderia me ajudar me dando uma direção?
Aguardo resposta...
Grata...
ATT..
:)

Comentário de Ênio Padilha
Oi, Ronilza.
Posso ajudar, sim.
Mande um e-mail para ep@eniopadilha.com.br dando as características do trabalho que você precisa fazer (artigo? quantas páginas? O artigo é de pesquisa bibliográfica? ou de pesquisa de campo?)
Mande o máximo de informações que puder sobre a natureza do trabalho. Aí eu mandarei algumas dicas que eu puder.
Boa sorte.


Haroldo de Souza Herszkowicz Júnior - Engenheiro Mecânico-Aeronáutico/ITA - São José dos Campos

Sexta, 25 de dezembro de 2009 - 11h21min

Ênio, você descreveu com muita precisão tudo que eu e a maioria dos meus amigos passamos aqui no ITA. Acabei de me formar numa faculdade de engenharia de respaldo internacional e sinceramente venho aqui dizer a todos que me sinto um M..... Entrei aqui com a auto-estima muito elevada e saio sem nenhuma! E faço dessas palavras as de meus amigos também. Creio que a maioria dos professores tem boas intenções e fazem o melhor de si, mas eles precisam de orientação para guiar melhor a instituição que possui métodos de ensino ultrapassados que não motivam o aluno adequadamente. Imagino que isso ocorra com quase todas instituições de engenharia no Brasil. Você poderia dar palestras para os professores aqui e no resto do Brasil para tentar mudar alguma coisa. O aluno não pode perder o amor pelo estudo nunca.
Um abraço para todos engenheiros do Brasil.


Doidão - Engenheiro - Ilha Solteira

Sexta, 05 de fevereiro de 2010 - 19h39min

Pois é, esse texto é perfeito, saimos da faculdade e ai...fudeu, o que vou fazer, esta tudo nas minhas mãos, os professores...sumiram, nem dicas de emprego, nem dicas de estudo, nem dicas de como bater uma punheta....te vira malandro, vai cassar quem ti quer, ser engenheiro é loucura ...e ainda há matérias que precisamos de um pscólogo do lado do professor pra nos sentirmos apenas deseperados, e as coisas que eles falam, nimguém entende nada...é mano, trampar até as 10 da noite de segunda a sabado !!!! e nem podemos furar o zói no custo do serviço como os dentistas ou mentir como um advogado...prepare as costas que vão descer o chicote, mais quando calejar fica tudo mais sussa !!!

Comentário do Ênio Padilha
Jesus!!!


Roberto Feriotti Neto - Estudante de engenharia mecânica - São Paulo

Terça, 09 de fevereiro de 2010 - 15h03min

Sou estudante do 6° e último ano de engenharia mecânica automobilística em uma das melhores faculdades do Brasil no segmento (FEI - São Bernardo do Campo) ..... E digo que este seu texto, apesar de ter sido escrito em 2002, está mais atual do que nunca....

Infelizmente, todos os projetos extra-aula que ocorrem na faculdade (Mini-Baja, Millage, Fórmula FEI) competições estas que são mundialmente reconhecidas, não passam de marketing para a faculdade atrair alunos...apenas meia dúzia de estudantes que não trabalham, nem pagam suas mensalidades podem participar..PÉSSIMO!

Iniciações científicas???? Que palhaçada é esta????????? Quem estuda em uma faculdade no nível de FEI / MAUA / POLI / ITA, e consegue tempo (e paciência..) para uma boa tese, é o estudante que provavelmente irá se formar sem experiência profissional, sem noção do que é mercado de trabalho e a loucura que é trabalhar em uma industria / canteiro de obras, etc.....

Mais uma vez: Ênio Padilha, parabéns pelo texto....ainda existem pessoas com (no mínimo) bom senso.....


fernando magalhães - estudante de engenharia elétrica UTFPR - CORNELIO PROCOPIO

Terça, 27 de abril de 2010 - 15h10min

Caro Ênio
Li seu artigo e como bateu com o que estamos enfrentando , eu ja tinha ate comentado com meus pais a pressão que alguns professores fazem..
Como vc diz , nós precisamos é de incentivo,e motivação pois o curso por si só ja eige muito de nós ...


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